28 de mai. de 2006

Então os pequenos vão pulam na cama de manhãzinha. Você me acorda em maio e eu te desperto em agosto. Vem, ajuda-me a viver as horas suaves ao seu lado. Vou vê-los por horas e descobrindo aos poucos, aos anos, um jeito seu aqui e outro meu ali.
(Religião)
Vou cuidar pra sempre de você, enchê-lo de flor, meu amor. Beijar seus olhinhos, cobri-lo de linho e de ouro, de sereno, de rei, eu sei: te amo há tempos. Quero me dedicar à deus e ao bem e a você, meu bem. Colocá-lo no colo até dormir e acordar me chamando de bela. Como soa bem a sua voz em mim.
Eu rezo teu corpo e comungo tua alma só para me purificar. Amando como nunca, adorando como sempre, sigo devota.
Estava ao seu lado quando sumi desse mundo: você me deixou pois não quer. Paciência, ironia e risos. E sinto que meus olhos ainda querem, mas de um jeito moreno e a música pára por aí, sem você, nem mim. Diz que tudo está bem, mas não, cadê você. Discute de mim sobre a maneira de agir: como sou, como é, qual é. Te chamo para ver o mar, o meu que eu cresci ouvindo, onde passei um bocado de minha vida de antes. Te quis lá, por um dia, mas cadê coragem de pedir. Bem pra você que não diz palavra mas disse que eu sou bem louca e que bem louca é quem adora e quer bem. Eu fico e só quero uma música e o teu lençol.
A menina que cresceu e quando foi mulher não sorriu. Achava que a vida não seria assim, que seria feliz. Pensou com força e lembrou de ter ouvir dizer que a felicidade não poderia existir nela enquanto fosse menina. E lembrou de como lutou para crescer, para enxergar a altura que via no espelho. E de quando notou que não era mais uma menina, era uma mulher. Se melhorou por amor. Amor a ela mesma ou a alguém. Porém, quando cresceu percebeu que tudo o que tinha ouvido era uma grande besteira, besteira que cobre o defeito do lado. É muito mais fácil apontar como sempre tinha feito, mas agora faziam com ela, mas até que foi bom.
E, voltando ao presente, a mulher soube a verdade: a felicidade existe sim, mas só para quem quer. E para a tristeza sempre há um culpado. E, naquele caso, naquela cena, naquele quadro, a culpada não era ela da infelicidade do lado.
É muito duro quando se gosta de alguém nesses termos. Foi quando a mulher resolveu sumir do mapa. E morar longe, e sobreviver e aprender a tocar violão de verdade e a ser a melhor mulher que há. E nada a derruba.
Sente uma dor no peito por sentir tanto. Mas esse é o modo como sempre se sentiu, com ou sem. Com a diferença de ter uma esperança única ao lado. Uma esperança que, obviamente, morreu somente depois dela, como boa esperança que era. Jaz.

26 de mai. de 2006

(Estória de Nada)
Nada cara de arroz. Quereu morar na praia, quereu e foi, mudou, se foi, ficou uma hora, se isso, e voltou pro centro da cidade sem mar. Nada pros íntimos sorri sem dente nenhum, chupa pão como se fosse um bebê. Escova os dentes com cachaça da cana que um dia alguém plantou e outro alguém destilou. Nada sabe fazer. Nem morar na praia. Quando viu aquele tanto de água mole, tremeu um pouco, feito vara verde. Então fez um teatro, fingiu que enjoou e pediu para que o deixassem na estrada que leva pra casa que ele não teve. Nada sem família, nada que não. Quando ele voltou, ficou calmo e feliz pra caramba e disse obrigado.

24 de mai. de 2006

Nesse frio de viramundo ficou olhando pela janela. E ouviu dizer que escreve como se tirasse fotos. Parabéns pra quem viu. Ouviu falar do aniversário número mil. E hoje é o seu primeiro ano.
Como da vez que não conhecia ninguém no meio daquele mundaréu de gente pequena e fez grandes pessoas de vida. Lembrou de ter chorado por se vir obrigada a sair do carro preto que os pais tinham. Mas saiu e, no final do dia, até que gostou. Notou que o seu telefone é hoje repleto dos nomes antigos, desses do primeiro, até hoje. Nome de nome-e-sobrenome. Lia Santos, Vitor Brandão.
É seu primeiro ano, como da vez que, já de ônibus, entrou no meio daquela gente grande, andou pelos prédios velhos e não entendeu nada. Se questionou dos porquês que a idade lhe fez carregar sem voz por anos, até ali, e achou que amava. Então odiou tudo pra no fim, gostar. Mas não no mesmo dia e nem do mesmo jeito. Um verbo entre parênteses e que veio só depois que passou.
Hoje não é diferente ao ver o trânsito pelo vidro e o frio. Tira fotos, mais fotos. Gostou do que disseram. Lançou-se do terceiro andar para um tempo de primeiros anos.
Como aquele seu, que nem se lembra, mas que sabe que foi ele que lhe trouxe muita coisa que tem. Talvez os erros. Mas certos também vieram. Quando vivia em casa, nas tardes e nos dias, porque as noites eram feitas pra dormir cedo sendo colar de pai na cozinha.
Depois que as pernas ficaram cansadas, por virtude do muito ver, sentou. Mas o calor das imagens no negativo branco ainda estão ali.
Passo o passo no talco e sambo soltinho. Minhas coxas lisas pelo pó. De sainha, eu vazo. Vou mi´mbora desse lugar. Tenho muitas coisas pra fazer ainda e aqui já deu. Não eu, que escolho a dedo. Eu vou é dançar em outra freguesia.

23 de mai. de 2006

(Milemtrês)
- Irritante o seu jeito de escrever. Sempre a mesma coisa, ´inda que de cor diferente. Você e sua caneta-mil-cores. Vou quebrá-la ao meio pra que você fique muda e morra.
Chega de imagens, de luz e cor e chatice. Você cansa e me faz dormir mal. Os mesmos adjetivos, o mesmo ritmo. Não é à toa que ela se matou. Foi você, a tua mão naquela garganta sangrenta. Você e a sua maldita caneta-mil-cores que ela enfiou goela abaixo.
- Ismael tem um sorriso lindo. É um Monalisa, só que com mil fios rindo encaracolados.
- Hoje é o meu milésimo aniversário e, apesar do ano, o meu não é regular. Não dura tanto e às vezes dura muito. Agora são 00 e18 há tempos, e ainda dizem que depois deles voa. Mas hoje, como demoram a passar, sinto o tempo parar no 19.
A função da maquiagem é deixar Maria menos cansada. Só Maria. O inventor dos produtos pensou nela, só nela. E em todas as marcas que um dia poderiam surgir. O lápis sempre preto na morena Maria e marrom na Maria Clara. Os lápis que Marias passam nos olhos deixa um caminho torto pela cara. Pele escura tem batom especial. E o labirinto sai com água como as coisas que saem com água. Tem também coisa que não sai com água. Nem com bucha. Só com produtos especiais. Acho que Carmem teve um caso assim. Um homem desses que nem com sabão saiu. Ficou algo, ainda que bem fraquinho, uma linha cinza envolta dos olhos pretos, um leve rosado na bochecha e a boca vermelha-carmim.

21 de mai. de 2006

Estava na praia e brigamos. Saí pra andar e ouvi com incoerência, uma mulher tão linda e tão sozinha, e era eu enquanto você corria de nós.
Pedi, por favor, uma última e derradeira chance com gelo e limão. Durou o tempo exato de derreter no copo, sobrando a fruta azeda. Chegou e não deu. Talvez eu não tenha dado o tempo, chegado a tempo, ou tenha me atrasado bastante, anos, décadas, vidas.
Não basta mais o prazer de minutos da fumaça. Precisa de caixas - com vinte, pacotes - em padarias e lotes - de mim. Afirmo, antes das dez estarei na estrada. Espera-se conduta, leva-se pedra.
Se me jogasse no rio afundaria em um segundo. Bolsos cheios de peso. O cérebro leve, em forma de pasta, patê de neurose.
Sou a criança mais alta do jardim, mas estou de férias e isso é bom.
Teu rosto nem é mais tão espetacular como era. Muda eu, mudo ele, e cresci uma samambaia por dentro. Supero, espero, um pouco, o coração não altera sua música por nada, só por si, por samba, por xis que tritura as pedras do meu bolso, viram pó-de-rocha e eu, ainda que nas cataratas, bóio. E circundo os fatos e me despeço desse pequeno pano, mísero-sem-visão.