3 de nov. de 2026

19/09 mina

o que eu sei de você é quase nada

sei da doçura meio rabugenta

meia de lã

excesso de rugas


e hoje descobri que você foi doada aos 9 anos

presente de casamento

para minha avó

escravidão

(isso faz nem 90 anos)


o que tem é que nunca recebeu um salário

e se orgulham de ter te aposentado

por idade


morreu antes da minha avó

depois do meu avô

o casal presenteado


dizem que a grande grosseria do meu avô 

era também grande com você

que brigavam

“italianos”, dizem.


maximina montbeller

que o templo glorifique o seu nome

mina


82 anos

 03/11/2026


hoje seria seu aniversário de 82.

e eu - sem querer - calhei de atender alguém com um pai morrendo igual você morreu


mas diferente de você, esse pai não pediu para a filha participar da morte dele.

achei bonito.


e, inevitável, que junto com a história do seu fim

vem uma desilusão


olha que eu custo a me desiludir.


investigo antes todos os lados possíveisinimagináveis

tardo tardo teimo…

até que, sim.

(mas  já falei que foi só depois de insistir muito?)



diante do seu pedido para ser a responsável consciente pelo seu inconsciente fim, fui deixar pra me abalar depois.

carregando o peso por quilômetros e quilômetros.

…cheguei até a índia.


voltei.


achei que o peso tinha ficado lá.


mas que nada.


veio tudo.


bola de pedra atrás de indiana jones.

era eu, de chapéu.

(e sari)


e como corri.


cansei.


aí decidi encarar.


e hoje, infelizmente pra você, ainda não consegui voltar a te amar. mas penso no pai que eu tive. sem florear.


hoje, terminei o dia tirando fotos das moedas da sua coleção

eu quis essa coleção, não sei você começou a juntar as moedas aos 12.

e hoje está comigo.

meu filho brinca com elas.

seu neto.


que você não conheceu mas que sabe que tem um avô francisco.

que começou a colecionar moedas diferentes há 70 anos.


incrível.


18 de set. de 2026

 napoLeona

a tua mão dentro da minha blusa

e eu mio

tua

ditadora-imperatriz-leoa

trisca faca no meio 

bem durante o dia mais sangrento

borodina

o sangue de 30 mil homens absorvidos nessa cama


chacina de nós


no final, te risco de giz e te isolo na cena 

é só um tremendo corpo tremendo


18/09

 meu pombinho

te quero branco,

pálido,

translúcido.

olhos vidrados em mim,

língua de fora,

ramo de oliveira no bico.


te quero vivo além

morto na terra.

(qual?)

se tudo é água, dor e um pouco de sal


não preciso de pás.


aqui somos dois - pombinhos sobre o bolo-barco

únicos no mundo

compromissados

unidos

até que eu te mancho 

e te jogo na salobra

sem chão, você baixa

a maré, alta


quantos dias até voltar, cheio de si/ar?


depende.

eu não.

nada

pombo sem paz.


 essa melodia falada, que extraño

saudade todo dia, si o si


ao andar pelas calles não te escuto 

e queria.


será que você também me falta?

será que me berra “marce, marce, donde estás?”

e yo te grito de volta “´cá ´stoy! no te olvido!”

mi castellano querido

você meu

eu sua


te vejo nas canções

te ouço nos filmes 

soy gardel em buscarte

te quiero


quedate en mi.


 amar você foi como um dia específico em santiago

montanha

frio

ar sufocante

sol opaco

chocolate

terremoto


 um índio gigante de arte nos abençoou

disse que seriam dias bons

e foram

te vi cuidando de um cachorro

carinhoso

amado

feliz

tranquilo

sem ter-que


eu sempre sonhei em te ver assim

mas poucas vezes vi

eu ainda sonho

mesmo sem querer estar com você mais


eu ainda te quero bem

só não te quero mais


(para não dizer que não falei das dores)


teimo, teimo e não consigo lembrar de tantos momentos bons assim com você…


que lástima.


sei que tivemos. viajamos, foi ótimo

mas não consigo lembrar deles.

e se lembro, não sinto como sendo bons momentos


são flashes, a gente atravessando a rua correndo em mardel, de manhã, transnoitados, 

indo para a praia, vendo o mar, adolescentes


teve a vinícola, rimos muito


a gente no dinossauro gigante, meu aniversário em madryn (mas lembro só da noite)


o finde em puerto indio - uma paisagem quase lunar até chegar num rio, outra linda, até uma praia


eu tocando ukulele, você cantando a mi manera no carro, eu tentando aprender na rapidez de ke personajes


flashes.


é o que o cérebro faz.


foram uns 500 dias com você

e lembro só do que falei acima


(e de você me enviando beijos de formas diferentes)

(lembro também)


no mais, não sei onde eu estava.

e sinto muito por isso.


 a saudade que, de vez em quando, me bate desses olhos azuis…


eu, fora de mim

repenso em como seria se…

mas não daria


seus desejos são muito fora dos meus

mas se sim, eu teria ficado

na cidade que amo

morado com você


(será?)


uma vida de jazz, de dancinhas, jantares seus, de vinhos, filmes… 

suas lágrimas e gemidos.


adorava ir pro parque com você

eu levava o pano, a gente sentava, via o mundo passar

o mate

o show de rock que você chama de nacional e eu, de argentino


a saudade - de sempre - desse céu da cidade que amo 

que tem a cor dos teus olhos azuis… 


lembro das nossas duas semanas finais de amor

nos amando a ponto de nos odiarmos

assim.


 quando eu te conheci naquele café, eu era outra

e você, o mesmo

eu estava altamente enebriada de mim mesma

vivendo o meu sonho

ganhando bem

trabalhando melhor ainda

na cidade adorada

(isso por fora)


por dentro eu vivia o fracasso de ser expulsa de uma vida construída 

rejeitada por um amor que não me quis como amor

me doía tanto que eu fingi que nada.

mas tudo.


então, quando eu te conheci, eu era uma sombra feliz de uma mulher triste

(não se troca de casamento, como se troca de roupa)

e eu falei da minha rareza, da minha fortuna, do que eu queria e do que eu não queria

você, sombra, também adorou


e fomos felizes até o amanhecer


o sol vem, destrói o breu, sobramos cinzas, recolhidas num meio-fio qualquer