1 de set. de 2026

 (l)

pensei agora, aqui…

teve um dia que eu reparei no dia seguinte só que não tinha pensado em você.

evolução.


antes era eu fazendo perguntas sobre você pro tarot, pro iching, pra quem fosse

se estava bem, se comia, se adoecia… se me esqueceu.


e dai que um dia vem essa

eu que te esqueci

assustei 


era uma incompetência quase física de esquecer


teve aquele que me disse pra nunca o esquecer

e eu respondi 

e eu lá sei o que é isso


(II)

e o moço que conheci agora me mandou uma mensagem dizendo

cerviço


achei lindo

por ser erro

por ser animal

por ser brilho

por ser marceneiro

por lembrar do meu pai 

(que escrevia tudo errado)


e na pergunta seguinte: 

nasceram no mesmo 3


3 pode ser metade de <3

vamos ver


(mas é bem assim que eu me apaixono)

(do nada)


 me atrai a ideia de poder ser outra

já que não posso sair

que eu fique

outra


rodinhas nos pés - presas

o coração e a cabeça, voam


seria uma delícia entrar na vida das pessoas

(eu já entro)

e modificá-las 

(já faço)

usando meu corpo

(isso não)


será que preciso conviver com mais gente agora?

eu acho que sim

preciso encontrar

me misturar

me mexer


tudo disfarçando


sendo outra

mim.


(JJ)

pensamento para 

onça na selva, 


o algodão embalando o algodão

a dor nas articulações da mão

a queda


amaciante em uns

amoníaco nos outros

suor


e no fim do treino

paz

e dor

pelo corpo todo


o amor mói.


01/09/2026

 01/09/2026


Relendo meus textos, vi tanta coisa sobre meu hoje.

Minha adoração por determinados relacionamentos depois que terminam.

Nunca teve a ver com você.

Nunca foi sobre você.

Sinto desapontá-lo.


Tive uma imensa esperança de amor que me acompanhou dos 11 até recém. 

Ele ia e vinha.

Ficava na espreita da minha vida.

Se eu bobeasse, ele aparecia.


Depois tive mais um, dos 22 até recém. 

Igualmente indo e vindo.


E você.

Dos 41 até recém.


Vocês três nasceram em momentos distintos, mas sumiram todos ao mesmo tempo.

Quando eu apareci.


(A obsessão desapareceu junto com o tratamento)


31 de ago. de 2026

 e a ressaca moral pós estado misto…


nomear os momentos faz diferença?

faz.


saber que eu não sou os sintomas é um alívio


quem não sabe nada me dizia: “difícil”…

e a dúvida se o mundo era muito bruto e ao-contrário ou eu, era uma constante


mas nem um, nem outro

: sintoma


e eu sofrendo… e ninguém ao redor ligando.


pra sobreviver, eu tive que acreditar que quem não se importa, se importava.

vivi em um mundo paralelo e - sim - ao contrário.

eu era cercada e me cercava disso.


o tratamento me trouxe a calma de conseguir enxergar a real.

sem exagerar. e poder escolher diferente.


assim que a ressaca de antes do nome era bem pior


77 - 44 = 33

 77 - 44 = 33


se eu tivesse saído meia hora mais cedo…

não teria te estapeado

eu queria era ter dado com a mão fechada

(mas a voz interna que me brota nessas horas disse, abre)


caos/delícia


do mundo todo, você é a única que daria gosto de estapear

(não que eu seja disso)


há sempre uma voz comum em todas as vidas que eu tive

e nelas todas, meu ressentimento por você segue igual.


não perdoo/arei/oei


o erro é seu


não fosse preparada, não tivesse filha.

teve, a conta é sua.


não cabe na lógica achar que quem veio depois é responsável por uma relação…


quando eu nasci, eu tinha 0 anos. 

e você, 33.

33 anos de vantagens para você, sempre.

crista.


14/08/2026

sentir-te dentro de mim é uma alegria triste

so quem te sente sabe o que é ser feliz

infelizmente é assim

digam o que disserem

tem até comprovação científica


mas depois, a conta chega

braba.


e enquanto ela não vem eu fico o tempo todo querendo que você fique

e fique

e reine

e festa!


mas daí, um dia, então, do nada, você vai

e eu, navios.

no chão

no lodo

no misto

inferno

de não te ter mais

e desejosa de que volte

logo

pra ficar


pra gente começar tudo de novo

russa.


 esses cabelos…

não combinam com ninguém

não quem esteja em 2026

mas eu não falei  nada.


só celebrei você depois do banho

com cabelo pra trás

será que deu pra entender?


a sensação de estar no restaurante ao seu lado foi paz

depois, experimentar a água com você

você falou do pão

achei bonito

taí uma coisa que eu nunca ganhei.


dai fomos pro silêncio e vieram os sussurros

e foi bom te ver íntimo meu

gostei de tudo

de ser par de limpeza, principalmente


e a paz parece que meio que foi indo embora

minha cabeça à mil

e eu tendo que decidir se ia, se vinha, se ficava

e mala pra cá

mochila pra lá

anda que anda

e nada


fomos ao teatro por mim

comemos pouco

cabeça foi baixando o ritmo

me diverti

pensei

e decidi que não.


queria paz sempre

te comuniquei

você fez guerra


terminamos no metrô

só porque você foi embora

(e o combinado era me levar em casa)

e eu fiquei 

a l i

v i a d a 


(lá ele)

(não to falando nada não)


12/08/2026

 seu corpo todo tatuado

(todo)

e os músculos por tudo

(tudo)

e a dança

como baila raro

raro como uma joia

distinto


seu suspensório

sua saia

seu estilo

sua voz

e os dentes de ouro


tudo roda

rodopia


31 igual a mim <3


ja te adorava antes

a sua presença

sua estranheza

sos un bicho raro

que baila raro


te quiero mas nao sei se te queria


12 de ago. de 2026

tempo-tempo

 ela na sala de espera, os pés irrequietos, balancando pra cima e pra baixo

era como um tic-tac de um tempo que ela sabia que não tinha mais.


ao pensar isso, optou por parar o ponteiro-pé e pos os dois no chão


os demais pacientes e familiares olhavam pra ela.


a quimioterapia destroi

a radio queima

o corticoide engorda

a careca brilha


“eu sabia que hoje deveria ter vindo de peruca”, pensou Maria.

“nada a ver. a vida é muito curta pra se usar peruca”, pensou Maria

“a sua, ainda mais”, pensou Maria

“hahaha”, pensou Maria


e riu.


riu também porque estava ali para se despedir da equipe que vinha lhe acompanhando há anos

ia parar com o tratamento

queria dignidade no tempo que lhe restasse

(e tinha uma esperança de que o tempo se arrastasse também)


“Sra. Maria!”, gritou a secretária.


entrou na sala da doutora, mal sentou, já foi direto ao ponto.


“obrigada por tudo. vim me despedir. vou pra Joanópolis, pro meu sítio, esperar a morte chegar” e riu de novo. sua risada ecoou sem graça.

continuou: “não espero que me entenda, apenas que aceite minha escolha, ok?”

e já foi pegando suas coisas pra ir embora.


a medica falou algumas palavras, foi doce, disse que estaria ali, caso ela mudasse de ideia, e que desejava o melhor.


Maria agradeceu e saiu. Pediu pra medica avisar a equipe porque tinha desistido de avisar.


Tudo porque ela sentiu o abraço de “então, boa morte” (ops, sorte) da médica.


e isso era tudo que ela não queria. sorte sim. 


decidiu descer de escada, eram só 13 andares.


começou a chorar… viu seus pés se movendo, pra baixo e pra cima, e pensou no tic-tac. O relógio tinha voltado a andar…. maaaaas…., conforme descia os lances da escada de incendio, ela passou a sorrir. Primeiro, timido. depois - lá pelo 5o andar ela já sorria mais. E mais. E mais.


até que no térreo, estava exultante.


foram DEZ anos disso e daquilo. 


Parecia, enfim, que ela tinha se demitido de um emprego ruim, com chefe ruim, com colegas ruins, num escritório ruim.

A vida só tinha lugar pra melhorar dali pra frente.


E Maria foi.

Pra frente.


Que fim levou?

Ninguém sabe.


Mas dizem que tem uma tal de Maria que hoje planta orgânicos no quintal da sua “casa” em Joanópolis, que está até hoje esperando uma visita que nunca veio…


tic-tac