18 de set. de 2026

 napoLeona

a tua mão dentro da minha blusa

e eu mio

tua

ditadora-imperatriz-leoa

trisca faca no meio 

bem durante o dia mais sangrento

borodina

o sangue de 30 mil homens absorvidos nessa cama


chacina de nós


no final, te risco de giz e te isolo na cena 

é só um tremendo corpo tremendo


18/09

 meu pombinho

te quero branco,

pálido,

translúcido.

olhos vidrados em mim,

língua de fora,

ramo de oliveira no bico.


te quero vivo além

morto na terra.

(qual?)

se tudo é água, dor e um pouco de sal


não preciso de pás.


aqui somos dois - pombinhos sobre o bolo-barco

únicos no mundo

compromissados

unidos

até que eu te mancho 

e te jogo na salobra

sem chão, você baixa

a maré, alta


quantos dias até voltar, cheio de si/ar?


depende.

eu não.

nada

pombo sem paz.


 essa melodia falada, que extraño

saudade todo dia, si o si


ao andar pelas calles não te escuto 

e queria.


será que você também me falta?

será que me berra “marce, marce, donde estás?”

e yo te grito de volta “´cá ´stoy! no te olvido!”

mi castellano querido

você meu

eu sua


te vejo nas canções

te ouço nos filmes 

soy gardel em buscarte

te quiero


quedate en mi.


 amar você foi como um dia específico em santiago

montanha

frio

ar sufocante

sol opaco

chocolate

terremoto


 um índio gigante de arte nos abençoou

disse que seriam dias bons

e foram

te vi cuidando de um cachorro

carinhoso

amado

feliz

tranquilo

sem ter-que


eu sempre sonhei em te ver assim

mas poucas vezes vi

eu ainda sonho

mesmo sem querer estar com você mais


eu ainda te quero bem

só não te quero mais


 teimo, teimo e não consigo lembrar de tantos momentos bons assim com você…

que lástima.


sei que tivemos, viajamos

mas não consigo lembrar deles.

e se lembro, não sinto como sendo bons


tenho flashes, da gente atravessando a rua correndo em mar del plata, de manhã, transnoitados, indo para a praia, vendo o mar, adolescentes

teve também o passeio à vinícola, que rimos

a gente no dinossauro gigante

meu aniversário em puerto madryn (mas lembro só da noite)

o finde em punta indio - uma paisagem quase lunar até chegar num rio, outra linda, até uma praia

eu tocando, você cantando, ouvindo cumbia

flashes apenas.


é o que o cérebro faz.


foram coisa de 500 dias com você 

e lembro do que falei acima


e de você enviando-me beijos de diferentes formas.

lembro também.


não sei onde eu estava.

(sinto muito.)


 a saudade que, de vez em quando, me bate desses olhos azuis…


eu, fora de mim

repenso em como seria se…

mas não daria


seus desejos são muito fora dos meus

mas se sim, eu teria ficado

na cidade que amo

morado com você


(será?)


uma vida de jazz, de dancinhas, jantares seus, de vinhos, filmes… 

suas lágrimas e gemidos.


adorava ir pro parque com você

eu levava o pano, a gente sentava, via o mundo passar

o mate

o show de rock que você chama de nacional e eu, de argentino


a saudade - de sempre - desse céu da cidade que amo 

que tem a cor dos teus olhos azuis… 


lembro das nossas duas semanas finais de amor

nos amando a ponto de nos odiarmos

assim.


 quando eu te conheci naquele café, eu era outra

e você, o mesmo

eu estava altamente enebriada de mim mesma

vivendo o meu sonho

ganhando bem

trabalhando melhor ainda

na cidade adorada

(isso por fora)


por dentro eu vivia o fracasso de ser expulsa de uma vida construída 

rejeitada por um amor que não me quis como amor

me doía tanto que eu fingi que nada.

mas tudo.


então, quando eu te conheci, eu era uma sombra feliz de uma mulher triste

(não se troca de casamento, como se troca de roupa)

e eu falei da minha rareza, da minha fortuna, do que eu queria e do que eu não queria

você, sombra, também adorou


e fomos felizes até o amanhecer


o sol vem, destrói o breu, sobramos cinzas, recolhidas num meio-fio qualquer


 e então você desapareceu

mandrake

fez vup

e zum

nunca mais


a cortina

a fumaça

seu cigarro de armar


te trancafiei

e cortei

de cabo a rabo

serrei, serrei


nao caiu um pingo de ti


você sem pernas

sem pés

só tronco

árvore-cabeça

e oco.


depois te joguei no armário escuro

e

nada nessa mão

nada na outra

sumiu


não fui tão inocente assim

era eu com a capa

era eu com o chapeu

você-coelho

que não apareceu


mas precisava ter me tirado do sério?

você sempre jaz isso

ops, fazia

ops.

faz


(o fundo do rio não propaga grito)


(desespero)


 parece música, mas aconteceu.

eu, num estado emocional tão ruim…

e daí, você.


pé ante pé

sem qualquer pretensão ou show

apenas ali

quase rastejando - mas pela velocidade, não pela humilhação

porque não teve.


veio como um rei, na velocidade-caracol

(menos viscoso, claro)


confesso que sua velocidade me irritou um pouco

(estado emocional ruim)

mas eu desisti

me rendi

o novo


hoje não me imagino sem tua calma

seu rastejo

o rastro

a casa