12 de ago. de 2026

tempo-tempo

 ela na sala de espera, os pés irrequietos, balancando pra cima e pra baixo

era como um tic-tac de um tempo que ela sabia que não tinha mais.


ao pensar isso, optou por parar o ponteiro-pé e pos os dois no chão


os demais pacientes e familiares olhavam pra ela.


a quimioterapia destroi

a radio queima

o corticoide engorda

a careca brilha


“eu sabia que hoje deveria ter vindo de peruca”, pensou Maria.

“nada a ver. a vida é muito curta pra se usar peruca”, pensou Maria

“a sua, ainda mais”, pensou Maria

“hahaha”, pensou Maria


e riu.


riu também porque estava ali para se despedir da equipe que vinha lhe acompanhando há anos

ia parar com o tratamento

queria dignidade no tempo que lhe restasse

(e tinha uma esperança de que o tempo se arrastasse também)


“Sra. Maria!”, gritou a secretária.


entrou na sala da doutora, mal sentou, já foi direto ao ponto.


“obrigada por tudo. vim me despedir. vou pra Joanópolis, pro meu sítio, esperar a morte chegar” e riu de novo. sua risada ecoou sem graça.

continuou: “não espero que me entenda, apenas que aceite minha escolha, ok?”

e já foi pegando suas coisas pra ir embora.


a medica falou algumas palavras, foi doce, disse que estaria ali, caso ela mudasse de ideia, e que desejava o melhor.


Maria agradeceu e saiu. Pediu pra medica avisar a equipe porque tinha desistido de avisar.


Tudo porque ela sentiu o abraço de “então, boa morte” (ops, sorte) da médica.


e isso era tudo que ela não queria. sorte sim. 


decidiu descer de escada, eram só 13 andares.


começou a chorar… viu seus pés se movendo, pra baixo e pra cima, e pensou no tic-tac. O relógio tinha voltado a andar…. maaaaas…., conforme descia os lances da escada de incendio, ela passou a sorrir. Primeiro, timido. depois - lá pelo 5o andar ela já sorria mais. E mais. E mais.


até que no térreo, estava exultante.


foram DEZ anos disso e daquilo. 


Parecia, enfim, que ela tinha se demitido de um emprego ruim, com chefe ruim, com colegas ruins, num escritório ruim.

A vida só tinha lugar pra melhorar dali pra frente.


E Maria foi.

Pra frente.


Que fim levou?

Ninguém sabe.


Mas dizem que tem uma tal de Maria que hoje planta orgânicos no quintal da sua “casa” em Joanópolis, que está até hoje esperando uma visita que nunca veio…


tic-tac


o tempo passa e estou escrevendo faz mais de hora

e trabalhando com o que já escrevi


eu tenho textos digitados desde 2004, mas comecei a escrever histórias assim como escrevo hoje aos 10, creio.


lembro de uma redação que me obrigaram a escrever como la gente escreve, com parágrafos e travessão e blablá.


eu nao sou essa.

e já não era.


dai que escrevi do meu jeito

sobre uma moça que estava na sala de espera de um médico


e eu falava que ela estava com as pernas cruzadas e tinha um dos pés adiante, que balançava e balançava.


enfim, eu, aos 10, ali, falando sobre o chacoalhar dos pés de uma paciente terminal de câncer. propício.


sei que a professora gostou/se preocupou.


“tão nova e tão dramática?”


– É professora. Sou de escorpião.


 


às vezes penso em você

o que foi feito de ti, meu amor

meu amor de antes


porque antes eu amava assim, esquisito


te deixei em outro estado, sem ninguém conhecido, e isso me doi.


você era tudo pra mim e eu era tudo pra você até que pluft.


eu te trai, eu te deixei, pra nunca mais.


eu poderia culpar o outro, mas nada justifica.

poderia culpar a doença, mas nada justifica - se bem que. Pera.


eu fiz coisas terriveis comigo mesma, pra mim mesma. 

assim que, pensando bem, acho que posso dizer que justifica sim.


te peço perdão. 

sei que você nunca vai ler isso - por inúmeras razões óbvias

mas te peço perdão.


se eu soubesse o que eu estava fazendo comigo mesma, eu jamais te deixaria sozinha.


(..)

boa parte do que passou, eu não me lembro

foram anos que passaram como meses

e eu passei

envelheci

casei

descasei

casei de novo

tive filho

mudei de pais 

descasei de novo

mudei de novo de pais

e cá estou


te pedindo perdão

como se fosse o dia um.


11 de ago. de 2026

arrecifes

10/08/2026


(i)


relendo o passado, sua poesia sumiu

eu lamento tanto

voce era todo poesia e filosofia

agora talvez encontre algo de filosofia so

entre compromissos e deveres, sobra tempo do que?


queria te ensinar a tomar mate no parque

comer bolachinhas doces

e deixar o sol queimar


será que é da doença não conseguir descansar?


o desfrute veio para mim com os remédios


antes eu nao entendia

antes eu nao conseguia


hoje, como prezo.


(ii)


se tem algo de bom que buenos aires me deu foi a paz

o nada

o sol

o rio

tomar mate ao sol

vendo o rio

fazendo nada

em paz


(iii)


eu nao pretendo esquecer do colibri que ficou em cima de mim, beijando a flor da árvore do quintal daquela casa

a piscina ali, para nós

a rede atras


você me fez tereré

mas eu nao troco meu matecito por nada nesse mundo


e ficamos ali.

dolce far niente

con vos.

 

(i)


ler você falar do fim me apetece

por vezes me pergunto se sou sádica


ainda mais pelo mal que você escreve

e pelas imagens rasas que usa.


aliás, 

imagens nenhuma.


(ii)


te teria feito bem uma faculdade

faria diferença

porque sua cabeça é muito pequena, literal


você viajou como uma sombra do desejo de alguém

você estudou como uma sombra do desejo de alguém

você amou como uma pessoa que não ama alguém


você

alguém

.
ninguém

 lembro mais ou menos do dia em que fomos conhecer o apartamento da 9 de julho

era uma kitnet

mas era linda


tinha algo de rosa (azulejos, talvez) e uma vista linda para uma rocha imensa

bem no meio de sao paulo, uma rocha imensa


e na varandinha, vendo a rocha, haviam gatinhos

filhotes

bem ali


nao sei se foi sonho ou se foi assim

sei que era um sonho pra mim


começar uma vida com você

a pessoa pela qual eu fui mais apaixonada nessa vida


hoje, passados mais de 20 anos eu já nem sei mais

mas guardo essas cenas no coração


o chão de taco, o rosa, a rocha, os gatos

e a alegria de segurar a sua mão


11/08/2026

(1)


ele me faz tremer

a cabeça gira, roda, voa

antes meu coração disparava


com o passar dos anos, depois de quatro

passou o disparar

e eu nunca paro


não sei se o calor, se la bombilla

se a cafeína ou a lembrança


(el matecito)


lembro de tomá-lo por primeira vez na copa de 22

era messi x qualquer um


bem eu que não via jogo desde os 15

ali, com 40, uff


me enamoré tudo de volta


(11) 

meu bisavô materno foi um dos fundadores do spfc

eu, fanática

de um jeito terrível


aos 15, pelo gol do palhinha, me desiludi

e nunca mais torci.


nem aos 24, ao namorar outro são-paulino


porque o futebol quando entra em mim, tira o pior


(111)


mas daí a seleção argentina venceu e fomos para a 9 de julio


foi incrivel ver o que vimos

eu, meu ex, meu filho


o tanto de gente pendurada em tudo

e o moço que apareceu lá na janela do obelisco

e cantavam “muchaaachos….”



(1111)

me lembrei do restaurante peronista que eu adorava ir

“los mú-chachôs peroniiistas…”


lembrei do mondongo no frio de buenos aires

e do altar para maradona, el d10s


a saudade que eu sinto de la capi <3


foram os anos mais felizes da minha vida


a segurança que senti


poder sair para caminhar pelas calles de madrugada

comprar um alfajorcito no kiosko…


anchorena y juncal


(11111)

hoje vivo em outra capital, a minha.

sinto-me insegura nas ruas

tudo aqui é de carro e eu não tenho

vendi o meu antes de ir

voltei a pé


mas penso em comprar una bici elétrica para os dias de sol


porque aqui tem sol

o mesmo que carrego acima da minha palma direita


…a mesma mão que eu pego meu mate com la yerba meio taragui/meio canárias 


 eu gosto de te ouvir escrever

você, pessoa sem rosto

eu acredito no nome que você se dá

e na história que você me conta


eu estou aqui para você

sempre

toda segunda à noite


você me llena os dias

e eu te espero

e espero que você não se mate

e que se for, que seja algo tranquilo


eu estarei aqui pra você, pessoa sem rosto


com

você,

viu?


 (a)

sinto que minhas escritas estão ruins

quando eu era mais nova eu tinha mais molho

agora aos 44 estou mais seca

esturricada

(b)

nunca assisti seus filmes, 

é sér(v)io.

as várias mim


yas! mim

jazz mim

jaz mim

´xá comigo

renasço a cada tanto