10 de dez. de 2006

Circulo. Circulando. A letra dela é re don din ha, o amor era redondo, seus quadris
Ah!lice, que bem que te quero
Lançou-me ao mundo de letras palito e tua letra, Alice, é tudo o que preciso. A sua lista do mercado, seu modinho de escrever.
Não como mais. Espero maná cair.
Sem papelzinho na geladeira, melhor assim.

Natal vizinho, lembro da letra no cartão (eu sempre fiz questão).
Caligrafia farta, teus seios.
Apaga amor, apaga que eu te dou as penas, todo o travesseiro que sinto de mim.
Voa pra mim: rolando vem Alice
A falta do meu nome no ouvido. Falava-me ele por inteiro. E era eu, silente, sentinte do calor das suas cordas. Vogais pela casa, como jornal que era eu a recolher.
Agora tenho silêncio na orelha e leio na cozinha.
As letras, cinco, jogadas pelo ar, na ausência do som.
Nunca mais meu violão, as meias dentro da mala. Queria falar de ti, e, sem querer, como algo desassociável, falo de mim e desse partir-me em mil que persiste em insistir em ser presente.
Seu dia passou, eu esqueci de mim jogada numa gaveta qualquer da estante do ser só (que nem gavetas têm).
(i)
Ao aguardar o dia seguir
Ao aguardar o toque do peito sentir mais
Esperar
Tal qual senha em repartição.
Peguei seu nome quando nem sabia o que queria
Um querer em forma de instinto
Somos mamíferos

O mamífero dá a luz carregando criança por dentro, toma leite e é coberto de pêlo pelos lados.

(ii)
A cigarra barulheia
Seu histerismo está dentro de mim, minhas patas
Acendi o meu último cigarro mas não é hora de parar
Esse ardor auditivo dentro comendo meu cérebro, bebendo meus sucos
O dente da cigarra, a serra
Sabemos, eu e ela, que o som não sai da boca sua. Mas de onde?
O para-onde se endereça ao meu ser. É belo.

(iii)
Penso e não acho resposta para a pergunta que nos envolve.
Por que o medo da chave?
É um objeto sem cor, cheirando a ferrugem.
Você nunca tocou na minha.
Quando te peço para passá-la para mim (como sal em mesa) e você joga o guardanapo em cima dela e, só assim, me dá.
Seria maldição e eu não sei?

Sei que o sapo falante não podia contar à rainhazinha sobre sua condição. Ao jogá-lo na parede foi que ela viu garbo e elegância surgindo do sangue de sapo esborrachado no branco.
Eu retomo o meu temor seu.
Tremo de calor ao terminar o dia.
Amanhã, talvez, queiras ter a minha chave nas mãos e queira-me entrar sem sair.
Princípio.

(iv)
Homem que te quero barba ro
Sua que quero me molhar
Olha para mim
Eu espero a hora de ser sua mente corpo sal
Partitura
Por mim dura o tempo que o sentir dá
Saudade das suas linhas negras, seus jogos de entreter.
Saudade do som que faz ao surgir do branco.
Saudade.
Sinto pelo sumiço meu, mas, sabe como é, as coisas são assim mesmo e não duram o tempo que se quer e sim o tempo que duram.
Ache-me simplista antes de me procurar.
Eis-me.
As laranjas laranjinhas... Nada. Bom é parar de inventar. Sempre foram é verdes e de gosto bem ruim. Lembravam limão.
E não eram lima.
(i)
Tive um belo verão, mas não por conta do sabor das laranjas que caiam no meu colo. Nessa estação, o vento balança com força. Caem as maduras. Pego-as somente assim, pequeno eu.
Aos 7 não se pode subir degraus sobrepostos sem se machucar ou sem alguém gritar sobre o perigo que é.
(ii)
E depois, no frio já, reconheço no ar o cheiro que tinham os móveis da casa da minha mãe.
Nasci do feltro que ela passava sobre a escrivaninha de madeira escura.
E ela ria, ria, ria ao dizer que aquele creme era o hidratante de árvores.
Ela sempre foi bem engraçada.
Pena que não a conheci. Sou só de mim.
(iii)
O abril que chega com seu sol e o meu vento que lembra a fruta do quintal, a cicatriz no joelho esquerdo, causada pelo deslize no macio pé de laranja. Ou era limão?
Aos 70 não me machuco mais, sou avô de família, poupam-me de tudo o que é natural.

25 de nov. de 2006

A semana começa e ele espera o instante de ter com ela uma vida feita de pequenos momentos
: Sintonia Rolleiflex
Madrugada me consome como dois e dois roendo-me. Corrói-me pelos pêlos inicialmente, ´pois partem para longe.
Deixa-me. Levo-te à estação, despeço-me. Prometo não chorar.
(Sim, sei que tenho vocação, mas, não, se pedires para mim, acato).

Brigávamos muito, fazer o quê, ter paciência? Faça-me o favor.
Ademais, depois de um tempo acostuma-se a levar pelas mãos, como cego, quem sempre esteve ali, de um jeito ou de outro. E, francamente, a essa hora da manhã, o que esperava?

Acho que meu comportamento é aceitabilíssimo. Talvez somente essa palavra não exista, mas deveria. Porque é mais do que aceitável o retorno que te dou. Dou-te satisfação e você nem sequer me satisfaz. Faço é demais.

Não fosse mulher, esmurrava-te.
Um som grave cruzando as horas.
Vento grosso no rosto, molhado.
O cheiro de dama-da-noite.

De um lado, o lago e suas águas dançarinas.
De outro você e seus pensamentos
...de um dia ser astronauta, um dia ser herói, ser super...
bacana.

Reflete-se nas aves e na lua (só um fiozinho hoje) que a verdade está para chegar.
O mês de setembro passou como um avião
e os jatos que levam as águas para passear (como o cachorro, como o filho) esfarelam esse encardido das suas costas.
Muitos anos sem tomar sol
... é isso que dá.

Foi ontem (mas um ontem de muitos ontens atrás) que o vi em marcha, com a cria nas mãos, sobre rodas
e sobre rodas se pode falar por horas

(Eu passo. Tu passou.
Ela não, não sabe nem pregar um botão)
Contudo, é o que te faz levar o bebê contigo.

Certamente, ele não se esquece mais da roda no asfalto, do acelerado do seu coração, do som da borracha nas pedra.

E sim, penso muito sobre as raízes que destroem o que o homem criou por se acharem de deus.
E é certo que quando isso chegar, você me pegará no colo para que a turbulência não recaia sobre minhas rodas finas. E eu te agradecerei a vida toda por, naqueles instantes, não ouvir o barulho delas no asfalto, dele no peito.
Eu serei ela no teu colo.
Gostaria de falar nesse segundo de admiração.
O segundo passou, o querer permanece.
Perene sentir dentro de mim: sem estiar.
No tempo, rocheado está.

Tal qual a abelha no meio do mel
Eu, pra sempre, às voltas com.

21 de nov. de 2006


Foguete*, ouvi. Sua voz que contou da idéia do meu retorno, mas eu não voltei.

Em junho, por todo o mês, aguardava, em silêncio, e só.
O barulho da criançada, era a falta depravada que ficava, escancarada como a porta.
E nada da sua chegada.
Via-te no ar, nas mãos, no canto do vento, no doce da cana.
Deixou-me o gosto roubado, a flor no vestido, incrustado em mim como peixe nas mãos do pescador
Tirei a renda da naftalina, forrei cama, cobri mesa e fiz uma cortina
Varri a casa com vassoura fina, armei a rede na varanda, enfeitada com bonina.
Voltou em junho como sempre foi.
O dia mindinho, a alegria me rasgando o rosto em postas:
nunca mais senti tanta alegria
O mundo todo soube, voou foguete, fogueira acesa, céu cheinho de balão
Amor tão bonito e sincero, feito festa de São João.

* (J. Velloso/ Roque Ferreira)
(1)

Às seis e cinqüenta da véspera, eu festejo os mortos do dia seguinte, reflito aflita sobre o pensar e penso penso e peso o peso, o peso.
Na feira comprei gramas de coisas por quilo.
Bom ser uma só, ainda que de cabeça confusa e sem ela.

Recepção, com sutileza: eu soube, eu sei.
Sentir transbordando aromático em seus olhos sorrisos
Sem toques, mas com eles, come-se.
Eu ré torno e o seu, em seguida, me fez crer em algo mais com a certeza de desejo
: pensou.
E seus olhos são de céu. E só rir deita o branco, por entre vales.
Uns pequenos, outro largo.
Conheci-te de lã ao pescoço
Inesquecível querer um
: inventor da leveza de horas
Palafitas do suave viver vívida
Em um quarto de dia quero vê-lo reagir em um quarto de vida.
: azul e amarelo sempre casaram para mim
Depois do dia meu, dia seguinte, giganteei. Tarde chegou e eu também.
: notei o bem-que-me-quis, bem-que-me-viste, ainda que despiste.

Refletido em espelhos, senti momentâneo pavor por não te ter na realidade. Uma mágica de uma eu barbada de ilusão.
Da cartola, arranquei a imagem e coube ao atrasado no passo, braços atados
: mãos frias de mulher.
Em ritmo de recém-existido o chão tremeu por tabela
Porque era eu, porque era ela.

Arranhaunhei-te por cordas e luvas.
Vestido como escuro que nos servia, dados em mãos joga das ao ar
E a água que vertia da foz da saudade sentida
Dentro dos seguros acolheram-se
: queria te nu m o utra paisagem, na qual revelaria fotos e lâmpadas avermelh a ri am me as unhas brancas de ator

Não sabia mos onde pôr, as mãos.
Troco-as por palavras e as jogo (com l ares) pelos chãos
: em baralho me em ti e sigo em esquecer-lembrar de tempo

(2)

Respiro-me
Repito que não farei
Lá, eu, ho´mando vez mais
Armando e seus gestos de plástico, seu riso de metal
Por que se aparelhou depois dos vinte?
Devia ter deixado a tortice rimar com seu andar
Retorno no dia seguinte, pós-jura, ao 12º, toco-te e deixo um pouco de mim e de água num copo.
Expulso-o e parto: novo ser ressurge do lodo
Lótus-mim no centro da idade.

20 de nov. de 2006

Ratinho, ratinho
Te estudo e te boto pra correr.
Você se cansa, até, mas não sai do lugar.
Bate na mesma tecla de onde brota água ou comer, depende da cor.
Depois, solto na rua, jogo-te-joguete pra cima e mando, voa ratinho, mas surdo-rato-sem-asa, desobediente mente e es patifa se no chão.
Sua resposta abalou minha escada.
Como subir para algo sem estrutura?
Foram quatro palavras úteis

Ferramentas dadas por telefone:

Se for pra dizer o que eu quero, eu digo.
Assim, sem meias verdades, irei direto ao ponto.
As mãos que te foram dadas por mim custaram-me caro
Vendi-me: maneta fiquei.

Os braços dados no passeio: devolva-me o prazer de andar.
Não me ergo mais.
Vendi meus braços no caminho do altar.

Pernas pra que te quero.
Resta-me correr. Concordo: ainda que sem graça.
Em estado de graça não valho um real
Imaginaria a mente minha que ao sair do ar (ainda que condicionado a dizer não-não), haveria sono de amor e a hora mágica em que o sol se poria na minha escuridão de sins.
Trinta flores em forma de rés: pega a cadeira e senta.

Aguardo da ponte o hoje se transformar no amanhã.
O sonho vivente, o ano ausente.
Encontrei-te na terra do sol.

Gritei freios ao mundo, preciso mastigar.
O tom teu é o que quero, passar inho
Sugando lágrimas antes delas nascerem.

Assim, sigo. Levando cada vez mais a sério a existência de amor da vida.
Não há nada que seja irreversível
E eu te busco a cada dia

E esforço-me numa pesquisa de nuances por detrás de cada ponto.

Conceitos dos mais arraigados foram desfeitos.
Gosto da mão em mim. Mas, esquizofrênico, não gosto de expor a minha
pel a m e.

Minha inconveniência inexistente é sempre presente em um mundo meu, no qual reajo e ajo acreditando que seja, o mundo, sem volta.

No reverso da rima que não existe (como o mundo) (redondo): alimento-me de dias, rodantes, pivotantes, em eixo de versos, papeantes.
Ponto cruz os dedos e desejo-me sorte
Em mim, sou ti nha não mais
Paz: cadê

Agulho me nha mão
Sangue no lento vermelho pano meu
Pela pele nossa: branca
(Mão)

(.)
Talvez eu devesse falar da voz ou do cabelo sem jeito, pois sim
Talvez das roupas. De sempre. Da cor.
Talvez seja sobre isso que caiba dizer
Porque o sentir não cabe aqui
...nem em mim

E eu não sou os meus sentimentos: eu apenas os tenho.
Querer não é troca e o sentir é meu.

Lençóis brancos ao vento. Móbiles na janela.

Decidi: darei-me o que quero que me dê.
E assim viveremos de mãos dadas.

(..)
A gente (es) corre, ri, e se beija.

(...)
Quero ver o teu ninho, seres e sua vista.
Quadro-desejo que acompanha.
A clareza do seu pensar
A ca l ma

Aguardo notícias suas
Rezo por você
A vida encar rega rá tua samambaia laranja

(....)
Ao ouvir a fala minha: desculpa
Pura e simples
Empecilhos para não viver esse sentir

Ora.

(.....)
Por onde anda a dor que deveria estar sentindo?
(por conta desse fim)
Sonha com o índio passado, de olhos delineados.
Mocinho.

Brincando-brincando: hoje é dia dos mais felizes.
Acorda cedo, descobre a pólvora, salta por entre muros, voa mos.
Mãos dadas pela noite.

13 de nov. de 2006

Uma cachoeira de olhos inchados. É sono.
Mas não. É falta de você na minha vida.
Fico acordada desde o dia em que você arrumou as suas malas. Sem pedir ajuda minha.
Deve ter ficado uma coisa, como sempre ficam suas coisas sem as minhas mãos.
Mas desde aquele dia, meus dedos estão pelo caminho, uma unha aqui, falange, falangeta, falanginha.
Era como você me chamava.
Só caí em mim, quando quebrei a cara e a asa.
Depois quebrei tudo, o espelho, a casa. Sete outros anos de azar, esses sem ti, minha sorte.
Sorte sua poder estar longe, de malas em punho, uma vez mais, quando as coisas voarem pelos ares.
Queria era você voltando. Diz, mas precisa ir tão longe? Algo como nunca mais voltar?
Era só dizer até logo, acho que eu entenderia.
(8)
Mas e a menina que vivia por aqui?
- Viajou.
Foi pra perto dele, no nunca mais.
E volta não.
No lugar semeou-se uma outra, rosa lisa.
Margarideci-me, roseei-te. Flores cemos nós. E somos.
Ignorantemente plurais.

11 de nov. de 2006

Queimei o céu da boca com a primeira garfada que dei.
Virou colchonetinho d´água, mole, fininho, em cima.

Su miss te e eu des apareci.
Saiba: realmente me importava com isso
: realmente sou fechada
En traste
Sai ste

E já foi.

Estou uma hora na frente de tudo o que passou e você não me alcança.
Mas aqui dá pé e eu dou no.
Corro e olho o chão (que é pra não cair)
(.)
(Diz: abafa)
(..)
Senti falta de vocês hoje.
Mas me controlei e não fui.
Um dia depois do outro e, quando se vê, já se esqueceu.
Quem? Qual?
De onde?
...desculpa. Acho que foi engano.
Dois lindos enganos.
Preto no branco.
(...)
Suas palavras de rocha, enfiam na minha pele e sangram.
A casa limpa, o chão. Mas as paredes estão com as marcas dos seus pés.
Quanta displicência. Quis fazer tipo de James Dean, cabelo despenteado e pé na parede.
Mas ela era branca e recém-pintada.
Sujou-me: rastros
A tinta fresca há de marcar os seus passos.

5 de nov. de 2006

E sei que a imagem me faz sorrir e eu rio de orelha a.
Tudo por causa dela em mim. A retina queimada pelos olhos de.
A música envolveu por horas de a. Braços.
E a diferença não existe pois, no-fundo-no-fundo, únicos e sempre iguais na unicidade. E moramos na mesma.

Os minutos a mais, e eu não: queria. Congela tempo, congela como faz com o ar.
Frisante. Grifei-te.
A distância deve permanecer intocada. Quem tem que tocar somos nós, em corpos-luzes, os anos-luz, ilustre tu nesse arranjo ímpar de ombros irretocáveis, tambor em mim.

E numa tarde comum: conte me teu sonho
...materializado
(ó: ao desistir de procurar, encontrei)

Resíduo desse amálgama doce que me l a você:
te saudade mesmamente imensa intensa.

E na ida ao céu de rima de vida: açucara
olhos negativos revelam segredos de grito.

Sen ti me ti literalmente: sou tua desde pequenininha.
Está a minha. Tenho de romântica, dizem alguns.
Mas para mim, é espaço, dois e só. E sim, há três, verde, palhas e um branco.
E vontades.

De ter claridade, minha luz e mesa. Madeira - quatro patas e um tampo.
E cara. A minha.

E quero uma caixa. Sisal? Sem.
E chave para me trancafiar no se e quando e por em quanto tanto sinto tanto.

E fios cairão do teto como leves teias de mim mesma, com espelhos ou não. Leves me leve m s. Quero vento e cama na janela.
Pra ver a lua dela. E contar estrelas ou contar pra elas o dia que passou, a noite. Assim. Falar do sol que ela perdeu naquele dia, mas dar um pouquinho em forma do carinho perdido. Um achado.

29 de out. de 2006

Burburinho de gente que ferve. É educação, diz pra mim.
Seria melhor se fosse somente grama, sem essas lajotas de cimento.
Mas é a educação, chamam.

Meu cigarro, pelo meio. Eu já não.
Inteiramente disposta, e os jovens aqui do meu lado debatem sobre a prova. Carinhosamente.

Não entendo muitos porquês. Inclusive esse que me faz escrever em letras-palito.
Já preferi bonecos de chuchu, velhos de nariz de batata.
(É.)
Acho que nunca fui constante nos prefereres.

Sei que meu vestido, quando eu sento, sobe. E eu sinto que quando ele sobe, eu me curvo pra que ele desça.
Sim, voltei a escrever em letras corridas. Sou a que eu conheço agora.
Mas vou me desconhecendo com o passar dos minutos.

Os números mudam, eu muda. Aqui nesse banco chamado educação.

25 de out. de 2006

Vontade de passar a manhã inteira sem definir.
Ordens: pessoas de preto e pessoas de marrom. Pessoas de chapéu de palha no verão.
Mas as coisas se encaixam no taco novo do meu chão.

(...)

O pó das mãos da gentileza daquele me abriu o portão e quebrou a chave.
Sem graça ficou. Ainda mais quando me tocou massa na calça escura.
A senhora me desculpe.
Pára. A diferença são meses. E, além do mais, seu gesto e seus olhos são tão bonitos. Parecem pintados com a tinta de que és feito.

(...)

E eu me lembro do seu avental de florzinhas lilases. Seu vestido de tecido pesado e frio. Seu sapato – traidor da vida – preto, de couro. Que espremia seus pés de unhas velhas.
E d´eu, passando o rosto na cortina molinha do seu braço de avó.

Esse era o nome da amiga dela. Uma carinha de quem nada fez, ou faz, ou. De quem passou a vida em branco. Nuvens.
Então vem o animal e descarta todas as possibilidades no meio da sua existência.
Depois vieram a filha e os netos e. Pobrezinha, em boas mãos de apanhar. Por tabela, por dó dela. Seu peito doía ao ver a cor sob as lentes escuras da família.

Mas eu disse para ela que ele não era um bom rapaz.
Se casasse com o outro, sobrinho da escrevente, não estava nessa situação.
Dói o peito, racha o pé. Moça nova, sem cuidados.
Ai de si, Doraci.
Seria demais se não fosse bastante
E é
Não sei de nada além do que reflito
Ver-te a . traz-me dó.
Música para os ouvidos. De quem?
Qual o ?
Frases com cor mas, nem por isso, completas.

Um amor que permanecerá no se. ano.
Divisor de .
.
De longe pareciam pterodáctilos. Voadores dizendo “aqui”.
Roedores. Aspereza. Espertos.
Ao redor do que restou, toca.
Tinham dúvidas, queriam saber.
Nada.
.
A moça ao lado respira com dificuldade.
Pensamos que talvez seja melhor, pra todo mundo, que ela opere logo esse nariz.
É realmente incômodo quando os ouvidos são feridos por esse ruído detestável.
.
No almoço ele gira a língua ao redor do morango
E diz que hum como adora assim, sem açúcar
Crua a fruta
Após passar por ali, ela desmoronará. Pequenas postas. Ex
.
Significados piscam para mim seus olhinhos adocicados
Vêem doce
Sigo no sentido do que o vento me traz e é doce. E vejo.
Sei sentidos os cinco
.
Lindo. Um dia de outono na primavera.
O lago, a senhora, o ar.
Músculos incessantes no ir. Fui.
Pernas e braços empurravam conscientemente os filhos. Filhos de bocas azuis.
Irmãos que riam, riam, mostrando dentes pequenos, coloridos, língua única.
A imponência sobre rodas, três, e os três.
No banco, a velha levantou a cabeça, desviou o olhar do caderno que tanto agredia com tintas, para ver de onde vinha a risada daquele sábado.
Vinha deles, vinha do que já teve. Mas se perdeu.
E a transeunte, no meio da vida, trancafiou-os. Naquele instante.

21 de out. de 2006

A flor de jasmim vaza no ar
Estrelas brancas e de perfume doce
À noite, cinco pontas, ó. Não há ais.
Semelhantes às cadentes.

Mas jasmim vai do chão pro céu
As reais cortam o céu indo ao chão

Machado na mão, cheiro no chão
Não.

Onde jaz mim nasce estrela nova
Do céu, pro chão
Sim.

14 de out. de 2006

Sonhos são sonhos que torno reais,
a arte de trazer pra cá o que é do lado de lá.
(...)
No banho deixei-me cair pelo ralo e seguir a corrente a meu favor
Sorridente
Por entre canos, tomei um. Chá.
Águas mornas. Rio claro. Chicotes de algas.
E cheiro de grama cortada.
(...)
Lembro das tardes na praia em que cortavas a grama do jardim
No verão, à tarde, chovia
E as pequenas graminhas se misturavam à água que caia do céu, no final de fevereiro.
Havia o zunido do cortador de grama, eternos zês unidíssimos que eu ouvia da rede, na varanda. Uma abelha gigante ou besouro.

E por lá também tinham os negros, cascudos e barulhentos, que moravam na planta verde de flor lilás que cobria o muro da divisa.
Lembro o medo do besouro enozar em meus cabelos infantis e, também, da história (de horror) do inseto que entrou no ouvido da filha do caseiro.

O mais patente, contudo, carrego até hoje: um amor pelo início do pôr-do-sol. Quando ele pega suas trouxas e se vira na direção de casa, indo.
No verão, às 18h; nos demais horários, as minhas 17h queridas e sua luz, seus laranjas e o calor do fio de sol que fecha ainda mais os meus olhos já pequenos de nascença.
Agora que passou vejo que deveria ter gritado por novos rumos.
Ficou enozado em mim. Na hora agá, quando se oscila entre o sim e o não, eu silenciei.
A moça bem ali, bem na frente, platéia: emudeci.
Saí da sala antes dele sair do palco.
Ainda no escuro, sem nem olhar pro lado, sem a ver, sem riscos. De encarar. De enxergar.
Mas era a minha chance. Deveria ter pedido: "Novos rumos".
Laura era menininha quando o pai se foi.
A dúvida não podia calar o que a criança sentia. Era falta de calor.
A pesquisa da universidade grã-fina respondeu que até pra macacos o carinho importa.
Eles mamam rapidamente e se chegam, mais logo ainda, aos trapinhos com cheiro de paz.
(...)
E eu acabei falando pra ela que não gostava quando ela pintava as unhas de vermelho. Cheguei a até mesmo rir quando ela disse que, além das mãos, as unhas dos pés também estavam naquela cor.
Cor de jovem, mãe! Foi o que eu falei. Não de uma senhora de 62! E ria e ria. E ela ria também. Acho.
Agora, ao vê-la ali, lívida, sem vida, de lábios arroxeados, sinto que meu silêncio seria de ouro, de outro.
Mas as mãos cruzadas, da minha querida, são brancas. E as unhas são de um carmim tão vivo que rimam com as flores que sempre enfeitaram.
(...)
Depois, estou no bar. Só. Mas bem assim é como eu quero ficar.
Vou limpar as coisas que ele deixou, por dentro, cada canto da casa. Mas, para isso, terei que aguardar a vontade chegar.
Por ora, deito e sinto o sol se pôr e nascer (pela fresta da persiana fechada) e a poeira se acumular. Minhas aranhas têm nome, minhas digitais já foram cobertas, por ali não passei mais sem pai.
O único desejo que vem é o de permanecer com a janela trancafiada, longe do sol, dos ruídos das gentes.
Não tarda, broto de baldes em riste, jogando água nesse lago parado de salgada saudade.
Por ora, permaneço.
(...)
Chega de procurar por quem não care.
Dizem do italiano, do alemão: sangue quente, pavio curto.
Mas sou brasileiro pavio quente e sangue curto.
Falta-me ar por vezes.

Sou calmo o ano inteiro mas quando é bissexto saio do prumo e...
Queria mesmo era te cantar, mas sou homem sério demais pra isso.
Não gosto do calor. De púrpura bastam as suas unhas que lembrei ao ver o sol pois às 17h o céu avermelho-escure-seu.
Lembrei-me também da raiva que me cegou, surdou, mas, veja só, fez a língua desatrelar. E sou besta: apago seus rastros em mim, seu telefone, fotos, coisas – na esperança, vã, de que assim você se (des)ap(a/e)gue de mim.

11 de out. de 2006

(...ar ar ar...)
Ricardo me fascina.
Não tem como negar.
Acordo duas horas antes, desnecessariamente, só pra me empetecar.
Chego no serviço antes do apito e posto-me em frente ao portão, a fumar.
Vidas atreladas.
Eu só entro depois do bom dia.
Se ele atrasa, atraso também. Paro meu relógio de pulso pra provar pro gerente a razão dos vinte, trinta minutos, uma hora.
Teve vez que esperei uma vida. E ele não veio. Adoentou-se Ricardo meu.
Precisou de transfusão. Pudesse dava todos os meus litros. Mas sou mignon, não pude dar nem uma colher.
Até hoje penso em como seria ter meu sangue no sangue de Ricardo.
Mas, então, paro de pensar porque o sangue me falta com a idéia, me sinto desmaiar.
Bom dia Ricardo.
Na hora.
Posso entrar.

8 de out. de 2006

Ver-te. É verter em saudade do que foi, desaguar em mar já navegado, lamentar pela hora, pelos anos. Sentir.

Fica em mim até amanhecer e aguarda o que não virá. Não aguarde.
E a confusa idéia do que não se sabe.
Roteiro já conhecido, familiar.
Não em forma de sim que não se desprega dessa cruz que carregas no ombro direito.
As histórias podem ser reescritas, em outras línguas, em novas cores, quereres.
Não sei quando começou, mas erros são erros, sempre erros e acertamos também: fato.
Dá-me espetos que te perseguem como lanças e cutucam-me com alma de deus.
Olhos gigantes, escuros. A beleza em forma de pele, uniforme meu, por vidas.

Não há respostas. Sei que, às vezes, um charuto é só um charuto, e nada mais.

A confusão de ser tudo ao mesmo, tempo, preciso, de, tempo, de. Vírgulas. Dê-me tempo, como já me foi dado.
Preciso amadurecer longe das suas garras dominantes, seus genes afiados, sua vida roída. Liberta-me, mim. Peço a uma cigana. Livra-me.
Pipa-me, let it be, let me go, leiloa-me vida. Por ora, deixo-me levar pelo mar. Novo mar, meu mar. Mar meu. Nome.
Às 23 horas um espírito de outro ser invade a casa. Uma casa, então melancólica, agora cheia de ar.

Seriam os passos no corredor, pés de vizinho, ecoando no vácuo. Esse limítrofe sempre com suas peculiaridades, especialidades, querer bem, espremiam-no na condição de trabalhador.
Quero contar dele, esquecer dos ecos do outro lado da porta.
Quero falar que esperavam dele mais, e ele fez menos. Morreu antes do tempo, deixou dois filhos pequenos, mas criados. Era um criador, fotógrafo de nascença, chamado João. Um dos pequenos herdou o nome do pai. Herdou também sua doença, não a que mata, mas a visão de olhos escuros. João, esse Pedro, vê com olhos de criação.

Quem foi na missa, depois de uma semana, disse que foi tocante ver o filho com as fotos do pai nas mãos, distribuindo-as como ele mesmo fez na exposição no museu. Era fera o cara. Ficou assim, emagreceu, empalideceu, sua luz diminuiu e, aos pouco, fechou os olhos: um (enquadrou), depois o outro, clic.

Perde-se um vizinho, perde-se uma visão. Perde-se.
Ganha-se ar e liberdade. Nesses dias, talvez fabricados apenas pela morte de um.

7 de out. de 2006


Retorno à fábrica.
À noite. Sem fumaça.
Sinto-me só. Como há tempos.
Mesmo tendo-te perto.
Para avaliar: fazia tempo que não ouvia Caruso e, hoje, ouvi o dia todo.

Acerca da mais linda história e triste.
Imagens.

Minha terra, sentirei saudade. Onde o mar brilha mais, o vento sopra melhor. Sem falar do sabiá.
Mas vejo um homem abraçar uma ragazza, depois de haver chorado.
E eu sinto essa dor: reflexo do piano no sentir.
Nada que uma linda lua não cure, fazendo doce até a morte.

Ao olhar atento para os dela, aqueles olhos verdes como o mar, ele chora e sente-se afogar.

É a vida mentindo pra você, você mentindo pra ela, mas...
Quando dois olhos te enxergam, tão de perto e tão reais, palavras são esquecidas, confundem-se os pensamentos. E a pequenez das coisas todas, até os planos grandiosos, é a vida que termina.
Agora paro de pensar, sinto-me até feliz e recomeço:
Te voglio bene assai, ma tanto tanto bene, sai.
E' una catena ormai che scioglie il sangue dint'e vene, sai.
Como já dito, ela se lambe da rua por onde andou e volta. Língua na pata e, assim, ao redor da cara, esmagando bigodes com as almofadas das mãos.
Alimenta-se delicadamente. Voa por sobre o chão.
Pêlos doce de algodão negro.
Cores.
Rosa, amarelos, branca, sorriso de dentes pequenos, orelha de radar de nós.
Personalidade. Ninguém a tem. De.
Quereres além da espécie. É ela, sou dela, e ela é por.
Diversão, sentir. Inesquecivelmente, retorna.

6 de out. de 2006

(...)
E por morrer aos poucos, como todos, dá-me uma vontade de viver mais. E é isso que faço. Acordada, não durmo. Em pé, trabalho.
Um ritmo que não sei por quanto tempo suportarei, digo eu, mas é o físico que me preocupa.
Meu gênio da lâmpada é daqueles bem burros, ou radicais. Sim, deve ser xiita, o puto.
Quando falei que queria me matar de trabalhar, era força de expressão. Mas ele não entendeu assim, ok. Paciência: aqui se faz, mas se paga no caixa.
Mas não posso reclamar de tudo não. Tem a parte boa disso: a da casinha. Minha e minha. Uma idéia cada vez mais próxima e cada vez mais definida.
Essa e a outra. A de trás dos montes, mas as rodas só giram em julho de 2007, então tenho longos nove meses para ficar por essas bandas. Ainda falta para a minha turnê nascer.
(...)
Não há razões para desenhos infantis. Não mais. A moça caminha no meio da rua sem ler o que vê nos muros, nas falas, nas placas. Encapa´cidade e sai correndo e sem roupa de baixo a postar-se em frente à parede.
E relembra que suas verdades são universais e, portanto, verdades somente, sem pronome por perto. Como tudo que é seu. Digo, como tudo.
(...)
Um dia bonito. Foi isso que foi. Mas não um dia só, foi mais que um. Mas o sol que fez hoje, e o raibã que eu ganhei no casamento da minha amiga, me fizeram ver uma bola de fogo mais temperada. E triste.
Acordei cedinho, como sempre é (menos quando perco o sono), e achei que faria frio. Às treze horas, fui ver a amiga no café e eis que me derreti na avenida. Talvez por sim, talvez por não. Nem o sol, ou a fome, mas a gata que sumiu e até agora nada dela.
Saiu de madrugada pela porta que eu mesma abri. Foi assim. Mea culpa, já fiz. Mas tem o outro lado, da Paulista. Minha Mia, se foi. Mas volta.
Quero vê-la (mesmo sem ver, mas) bem, de novo de onde eu lhe tirei. No meio da gataria.
(...)
Não precisava tanto para sorrir: uma mão para segurar.
Demorei a assumir o meu lado vingativo. Tirando ele: quase um amor.
(...)
O que queria era, sim, legitimar o sentir familiar.
Inclua-me fora dessa e essa era eu a pedir. Mas não, quereres de um querido eram maiores que uma bola de ping (e) por sempre ser jogado precisava de um querer assim, aí se pegou em cada roubo, com pessoas com outras e sem falta e foi.
E eu, ao abrir uma janela querida, vi seus olhos despertarem ao sim. Antes, o não era tudo. O velho não do velho seu, vê? O antigo faz assim até com conhecidos e nãos: gosta de secos, em-fins. E nessas, por querer ser sim, eu-mim tomo banho gelado e sem razão. Diz sim-sim e sou não-não.
(...)
Mas às vinte e quatro horas ela voltou, ouvi seu sininho ao longe, chamei-lhe Mia, ela veio como uma bala com rabiola preta.
Depois se lambeu da rua, devorou um potinho, com vontade, e dormiu no pé, até o dia seguinte.
(...)
Eita ferro.

4 de out. de 2006

E eu acordei entre 1920 e 33. E a lei seca corria solta. Era mulher como hoje, mas escondendo entre coxa e meia calça a arma de sempre. Carregada.
O carro, preto como sempre, mas com prateados e faróis redondos. E sacos pardos, milhões deles, jogados pelo banco de trás.
O sotaque da minha língua amortecida pela bebida caseira era mais pra lá.
Eu dominava as fronteiras, o país, que não era meu, mas quando eu acordei em 25, creio, era.
E com o vestido vermelho como os lábios de batom e as unhas carmim, as minhas.
Meus cabelos ruivos, como tudo, eram presos num coque. Um cabelo bem feito e alto na cabeça, com fios encaracolados caindo na cara de gângsta.
Caminhos meus e secretos, pelos quais homens de terno preto, como sempre, desviavam as atenções com grana, bombas e tiros. E eu, com o chapéu um pouco mais escuro, passeava doce e livremente.
Vendia, comprava, fabricava. E, lá por 34 viajei de navio. Pra nunca mais.
Virei loira, ´pois morena e cá estou, contando essa história em forma de alucinação.
Sim, meu produto tinha, sempre teve, muita qualidade.

1 de out. de 2006

Ao ver Francisco rodei em plena pista e escorreguei, batendo com a cabeça na guia. Sou meio cega às vezes, na maior parte do dia.
Adia meu compromisso.
Comprime o ar e meu primo-irmão escreve sobre abacates, gorduras e caroço.
É médico o pobre. É médio. E bom mesmo é ser cidadão nessa cidade grande. Onde não cresci, mas nasci que foi uma beleza. Com raízes longas, me alastrei, balaústre, arquitetei.
Seus olhos, diferentes dos de pai, mas de prima profissão e nome: eis.
Em três cores (feito cabelo da moderna senhora) bate nosso peito são, magro porém.
Lágrimas lá, gema minha, meu, ó pá.

Eu gosto de fato. E de fados.
Mas pe(r)de-mim a paciência: tenha a santa.
E entristecer é ouvir o canto que ouço e concordo: se lágrima fosse de pedra, eu bem que chorava. Mas sou Cristo sem sangue, redimindo os pecados alheios.
Mártir nesse redomar-me de amém.
(Votos)
Que sejam livres, ligados pelo bom.
Fortes: casa do desejo de não derramar água dos olhos do outro e suaves o suficiente para terem o que levar, quando forem, se.
Sejam doces: o que alimenta, e ternos: o que seduz.
Que os telefones falem sobre guarda-chuvas numa tarde de chuva e que se aqueçam quando couber. No verão que o sol os morene por igual, que as noites sejam feitas de histórias e que sonhem. Muito. Acordados. Dormindo. Sonhem.
Que o tempo seja feito de risos e pão.
E que ao final sintam esse fim e que chore, quem primeiro parar, de pura saudade do que passou.

Se você pretende saber quem eu sou

29 de set. de 2006

Madrugada em pé de manhã, deitada, agora, com olhos arregalados.
E a menor noção do básico que lhe falta. E quando vem? E vem? A lucidez de negativo de amnésia, o completo saber exato de quem, onde, para onde, porque e mais.
Avança a hora e olhos transpassam um varal azul da mesma forma que eu atravesso a vida: irresponsavelmente
(...)
E Ricardo e seus cachos azuis. Idéias de ser marinho. Sem eira.
Levar-me às arraias, sorrir.
Ser em sons: erres, eu fui.
(...)
E ela seguia meu dedo enquanto eu o girava em frente a face sem dó, secreta, sem fala nem pensa se é.
Acompanhava com força e eu, hoje, quando falo, mexo as mãos e lembro da cara que era dela que, sem atentar às palavras, rodava os cabelos no ar.
(...)
Dor como a de tamborim que perde o reco-reco
E tive um troço, assassina-me
Roto no sovaco, te bato, mereces, malcriado
Ricardo-rei meu rei, da educação
tardia sombria, enquanto
volto eu pra te cozinhar e comer com óleo de canola, vendo você navegar, no vento amado, onde carrega o lenço que te comprei no centro da preciosidade
Maldade
Seca a razão, peço em ordem crono -de cor- lógica -que estudou e- mente -sua (sub) humana- urbana
(...)
Mais um final feliz: plantações que eu crio - cativeiro -
Engato-os, dou-lhes mãos entre si, enredeio, semei-os-laços comumente, engrosso a estatística. Definitivo: o perfil segue sendo o mesmíssimo, tudo no lugar.
E todas as noites encontro-te com cara de arqueiro, sorriso de canto, olhos cheios de quem dorme tarde, cabelos brilhantes e duros.
Mágica: o que faz com eles dá ar de ordem e, ao mesmo tempo, faz-te cuidadoso conosco e gratos somos e bastantes no noturno da festa espelhada em que olha só pra si.
Acaba com papéis que lhe são lançados
Leoa: roar: precisarão de extras horas além das vinte e muitas: com caldo tem fome.
Cada minuto difere: descompromissada e irresponsável
(e pesa as conseqüências às segundas-feiras depois das sete da noite)
Grilo verde que cria, critica meu silêncio chato e esfrega-se entre patas e barulha então.
Verde som ao não
Procura casar (e inseto se aninha?) e cata gravetos por toda a noite, empacota e deixa-me de lembrança – de seu farfalhar de cortiço.
Brotou do ovo, cigarra perdida é sorte, dinheiro, espera.
Esperança até achar: formiga, virar: borboleta, brotar: madeira errante.
Depois, desisto: eras de barro.
.delicadeza sua ter vindo obrigada por tudo não tem de quê sim claro certamente pode deixar ai ai ai por favor tenha a bondade quanta gentileza seria encantador quanta formosura grata muito agradecida são seus olhos ui ui ui se não for muito incômodo a senhora poderia seria demais pedir não há de quê.

(entre pontos e aspas)

27 de set. de 2006

Cristal voltou de madrugada
Voou
Horas aladas
Chamas mãos
Chama que vôo
Enquanto o passo chegar
Chega mais
Continuamente
Crina clara
Acende uma vela e uma bola que foi e eu
Hei por ti ó pá, bacana
(...)
Cristo Cristie
A gata ri e eu grito
Ninguém triste
Rechonchuda
Bolinha de mi nh a auto ria
Ama dá passagem
De leite
Ricocheteia
Carinhoso feliz olhar de transa par em companhia
(dã)
plutão ah não filho de brutus até tu puto misto de desenho mar dinheiro tutu poupai, uma ordem, pô, e a grana? 22 gramas pesa a alma souza timtim brinda coração no ombro e âncora no antebraço me vou-me ir

(Sente-se fraco e que as unhas cresçam, destruam o mundo que ele passará. Passa a vez e passa reto. Deixem-no em paz com suas longas garras, seu coração curto e a imensa vontade grudada que traz no pescoço)

O sentido. Diz: esquerda, esquerda, esquerda e esquerda. E voltamos ao ponto: qual é? Mais velho disse que não tem não. Um básico ver a vida, um dia, ´pois outro, esquerda, esquerda – recomeça. E ela diz, sussurrando: não saber, mas que gosta do vento sudeste entre seus cabelos e pernas. Mas, puxando o bispo para si, caminha na diagonal, ela, e sua sombra da tarde. E outra vez morreram os três e quem via perguntou: e o sentido? E lhe ensinei: no final do corredor à direita. Ao que houve grito: não. É a morte, o caminho que vai pro fim.
E hoje não difere, nem por você, nem por mim.
E se o sentido é sentir e, assim, não ter sentido: para onde ir?
Decido.

Faz em língua de visões olhos espelhos
E mim era eu deitada na cama xis e corada de sim
Close-de-me e diz: beije-me
Melhor contar: mandar, de um igual, pois eu, ombro a ombro, digo: pare.
É o inconsciente que mente ao dizer não aos mins e nós
Diz estranho e lambe-me doce
Dá-me o que peço: dá
Melhor dizer mandar, de um igual, pois ele, olho no olho, diz: sobe.
A ta l da batata cora na tua panela esparge e manteiga o fundo Fritada sauté a tubércu la rgada no tempo salga a danada amassa purê Soltei-te voltou Azeite textura aceite-me so u l Amass a batata parte-a em dois com mãos em concha expresse as metades espreme as meias exprima que o Quente queim a língua de apressada pessoa que s fome ada me nte come crua a tua planta de sob a terra Tosse tome titubeia torr a batata em rodela fria e penteia nua em fatia incendeia e carbo h idrata a pele e olho que sobra no branco Recinto de boca cheia de amido la.

20 de set. de 2006

Tolerância menos quarenta e nove hoje. Deve se dormir antes de morrer. Senão vive para sempre e isso deve ser de doer. Vidrada pela morte, pelo nada, vazio, sumir, desaparecer. Vácuo, vaca. Hoje no pátio da escola, não do colégio, pois sim, bati o carro no poste. O poste caiu sobre uma criança de brinquedo, uma boneca, pois não. E eu desamassei a minha cara, com o ferro que saiu de dentro do cimento cinzento. Diz-se que a falta de ferro faz a grávida lamber o tijolo. Vá lamber sabão e fazer bolhinhas de. Patina, um armário feito de pedra sabão, intocável, ninguém entra, ninguém sai. Morre-se dentro dele, as portas serradas. Pedra pome, pomes e bebes. Joga-se água e sai do outro lado. Sugada pelas peles mortas dos pés de manicure. As moças e moços do supermercado andam de patim, patins, é o gongo, pá, tim. Pequeno pato. Bebe, bebe, moça. É isso que dá. Sonha acordada, vai. Não vai. Se dormir não bata o carro na cara de ferro. A prenha ensaia, às quartas, como será o parto, a troca de roupa e tudo, com a boneca de plástico. Lado bom: não morre, não chora sem pilha. Criança de novela: deita, dorme. Remédio de novela: toma, dorme, ou toma, acalma. Vou contruir um muro de pedra e declarar nele todo o meu sentimento. Um muro antigamente branco, escrito com esferográfica preta, por óbvio, sem desenhos. Apenas com o símbolo do com-tudo-tem, o oito caído, e frases sem fim. Até pretejar. Pestanejar os olhos de boneca e ficar sem, mamãe eu quero desfilar nua nesse carnaval. Buá.

13 de set. de 2006



Ele bate bem na minha cara
Esquenta-me
E eu o adoro

Quanto mais cedo durmo, mas tempo o vejo. Manhã, tarde.
Vai embora antes da noite, não se dá.

A mim cabe somente o dia.
Na minha lua, está com outra, certamente.

Adoração, meio peruana, meio perua, desenho-te
Jura que me esquenta até o fim, o corpo, corrompe. Eu rompo.
Te sigo, Ícaro, te chamo, vem.

Bate-me na cara, no corpo que é seu
Que há de reduzir a pó, um fogo tão intenso quanto o teu
Talvez menos, mas ainda assim, fogo
Arranca minhas asas
Gela meu futuro
Te amo meu

10 de set. de 2006

Dormir cedo
Balas coloridas
O azul que eu nunca esqueci e o sabor, açucarado
Cor reencontrada naquela imagem, doce como os olhos que tenho saudade
Delicado
Dedilho suas costas

O aperto no rim. Sufoco.
Bateria delicada.
E a hora de sentir-se-te entre dedos, cada digital sobre um pedaço
Abraço aperto sufoco e solto
Sim: quero-nos a granel
Carregou-me, assim, pelos cabelos. Tirei os pés do chão, subi metros, sumi. Depois, caí. Feio. E, agora, sou eu estatelada na área de serviço.
Tirei da frente os quilos de panos usados sufocantes, encaixotei-os de qualquer modo, sentei e chorei. Lágrimas doces por uma tarde inteira.
Sinto-me amarrotada pelos pés ao cimento dos meus planos sem cabeça nem.
Assim que der, parto. Longo o prazo. No curto há finais de semana, tenho reservas e lábios finos, outra faculdade, um sorriso, filme, novos sons.
Nessa tarde úmida de olhos, que já é noite agora como mostra a janela branca, trago uma dor infinita nos bolsos da calma que me veste hoje.

Cimento o que sinto: o pensamento
Cimento cimento
Dor é tristeza em pedra. Esfarelei.
Pó para sorrir e viver. Nessa ordem.
Substituí a fome de viver pela fome animal.
Engoli a vida após mil mastigadas: números e números
Trituro as coisas com os dentes, todos os 27 (não tive juízo, e o outro perdi aos 23), misturo e sinto com a língua toda.
Uma só, bi partida: reinicio o processamento. E durmo depois.

Acoberto assim as noites, por entre colchas, morrendo em cada amanhecer.
Diariamente.
Espelho invisível: o que há.
Comportamentos reiterados. São feições distintas, com seriedade comum.
Perdi-me ao atentar aos lábios sem cor que se mexiam mexiam. E o som era o mesmo, os esses os erros.
Busco um alicate. Desatar-me do apego que nem meu é.
Tome, tudo, volte, sempre.

Para desentulhar olhos, destravar a porta (talvez uma das últimas).
Arrancar os óculos de lentes escuras e ser, sem ti r.
De leve, passos miúdos.

No bar, as caras estranhas. Rostos diferentes que reagem quimicamente ao contrário do meu.
Gritos: hoje não. Unhas polidas que brilham. Meu carro sujo que opaca.
O melhor do dia foi quando entrei com ele na garagem: silêncio, conforto, calma.
Tudo tem o seu tempo.
Vida nova vida nova vida

Há uma hora para cada coisa, cem horas.

28 de ago. de 2006


Que sentimento ruim. Engano. Mas não é hora de frases feitas. Não foi ledo. Ninguém sabe o que significa ledo. Leigos burros. Eu, erudito.
Socorro: te odeio por me enganar a mim. Sim, duas vezes. Porque eu não erro nunca. Você sim. Escreve errado, leiga.
Eu, nem ao dar meu coração enrolado num laço, errei. Talvez o nó estivesse firme demais ou muito frouxo. Como você sempre falava que ele era. Ele. Não eu. Eu: macho. Que a anta sempre escrevia com xis. (E qual o problema?!)
Froucho e a trouxa de mãos dadas, escrevendo errado ainda.
Maxo: quebrei-lhe a cara, queixo partido, em dois, um pra cada um e foi pouco. Merecia terra por cima, na cara de louça. Cara de deus.
E meu presente pra brucha aos pedaços sobre o marrom do que um dia já foi vida.

Ela erra, eu não.

Te recolhi, passei álcool. É muita burrice pra uma mulher só. Não cabe em si mas cabe em mim, a( )colho. Encino. Adécuo. Imito. Adoro: emburrece-me, Socorro.

19 de ago. de 2006

Vou limpar a minha casa. Arregaçar as mangas e abraçar a vassoura com as mãos.
Chega de esperar descer do céu.
Balde e sabão. Escorrego, mas não caio. Água água cachuá cachoeiro. Lambo a pele, por entre os dedos, a face e, nessa ignorância, o que sobra? Desinfetar. -Te.
(...)
Consuelo não mais retorna (foi o que ouvi dizer) e eu, mexicano, choro. Lágrimas de plástico sim, mas que valem algo no mercado negro. Menos do que uma de sal, é verdade, mas melhor do que nada. Mão na frente, mão atrás.
Mas que nada, já saiu, sumiu no não.
Saí da geladeira ensolarada (amarelo, azul).

Circulador de ar. Roda roda rum. Vou, pra nunca mais deixar-me envolver pelo sono. Acordei ontem. Fui útil sim, pra ti, mas quero pra mim. Na falta de colo dei-te o meu, fiquei sem ter onde dormir. Pois não. Dorme descansa deita. Pois sim.
.
Interrompo o lançamento: (três) Lança-te (dois) lanceta-me: (um) sangro ao lado. (zero): Pouco, bem pouco, é verdade, mas ainda assim sangue.
O que sempre vale alguma coisa, nem que seja a metade em algum lugar.
.
Joguei-a novamente aos peixes, jogando-me não entendo.
Garrafa n´água bóia. Socorro debaixo d´água: nada. O barulho das ondas cobrem.
Perdi-me perdi-te. SOS.
Eu acompanhando-me. Sal conseqüente. Mar garrafa ato.
Lancei: tum.
O sal brota de manteiga dos olhos salobros. Perco-me perco-te. Perdoa-me. Mais uma tal...vez.
.
Intermitente prendeafrouxa altosbaixos.
Se um gráfico seria assim: MMM: plantação de pinheiros ou de emes, se se semeassem as letras. Silêncio.
Vou sumir por uns minutos, talvez volte, talvez não.

As forças nucleares utilizadas para correr contra a correnteza não deram em(e) nada.
Diz-se que sentir não rima com explicar: ir – ar: e você foi (passou?).
.
Ama o presente como se santo fosse.
Tolera o passado como água parada: transdontonte.
O futuro: não. Porque não há.
Sobre a água: nuvem não é chuva.
E perspectivas são ideais e eu gosto de carne, barba, saliva e osso.
Se isso: presente: o que quero. Se.
Pode ser que passe o tempo e eu nunca saiba dizer exatamente o que isso significa pra mim. S ó s.

16 de ago. de 2006

Nunca falei dele, hoje vou. Do colar mais lindo. E quem viu também foi desse jeitinho que falou. E foi presente dele alguns dias depois daquele, daquilo e, desde então, eu o carrego junto ao corpo, no pescoço.
Tiro só pra tomar banho e às vezes nem isso.

Levo-o no colo pra que fique mais perto.
O barulho das contas (quando ando) soma ao barulho do peito meu, quando vivo. E eu vivo demais. Ainda mais depois do presente.

As contas do colar que você me deu são bem amarradas, conectivos na medida, idéias, sensações. E eu, distraída, me pego olhando pra baixo, relendo-o, notando um sentido novo, um sentimento velho, a linha transparente que permeia a nossa vida.

É um enfeite da terra, graaande, que, quanto mais solta me deixa, mais eu volto: quando sinto, me sento e dou voltas ao redor do pescoço.
Prendo-me, por querer, no colar, prendendo-me em você.
E uma volta é sempre mais frouxa: pra gente respirar.
Adoro o jeito encanto, colar, seus contos, os cantos, sua voz gritando pra eu abrir a porta: jogo-lhe o colar. Que é o que de mais forte temos. Nós.

6 de ago. de 2006

Quando a chuva cai nessa inclinação (45 graus, acho), eu desejo outras felicidades.
Quando o frio faz com que os passantes escondam seus braços sobre a lã, meus quereres mudam.
Num dia como o de hoje, queria uma vida pré-fabricada.
Ir ao estabelecimento comercial e comprar um quilo de soluções para o vazio. Um baú de respostas prontas e certeiras. Em outras palavras: o gabarito.
Às quase 23 horas do último dia do 7º mês do ano, quero ser fácil o suficiente para comprar sorrisos meus com reais.
Bolsa, sapato, pêras e a felicidade. Mas, ei, a alface vai por cima, pra não amassar as folhas.

Lembro os passos descalços que dei, infinitos. Com os quais mudei, calei, não-errei. Lembro. Sonho. Vivo. Lembro de sonho vivo.
Dor atual que conforta hoje, como penas de ganso. Balanço, temo, estranho.

À pouco, com a ajuda do algodão, retirei o escuro das mãos, sendo outra, clara, branca, sem cor. Só de pé, ainda bem, conforta-me.

Quando foi que mudou, o tempo, tudo. Como foi e, por falar nisso, como vai?

Não sonho mais, hoje não. Ontem sim. Penas de ganso. Conforto. Apenas lutei para não me enganar. Fatos importam, nuances servem para a poesia, o quadro, a luz.

Pra que jogar fora tanta coisa?
O lugar onde eu deveria estar não existe e fui eu mesma que respondi.
E tenho uma bota para os dias de chuva inclinadas. Mas não gosto dela desde o primeiro dia. Era verão e eu, pré-fabricada, não entendia nada.

Quem já me surpreendeu um dia, me cansou. Eu durmo. Talvez sonhe, talvez não.
Sem saber das razões, legitimações, pães, nãos, uma pena.
Broto de fio. Novelo de uma eu casula.
Quero mais. Uma vida só é pouco.
Sou minha.
Carlos porque sim.
Ouço seus dedos de mel. Sinto sua garganta no pescoço ao lado, sob minha cabeça. Derrete-me.
A granel, unhas cortadas indo pelo ralo.
Um frio de fazer viver os mais espertos. Queria-te aqui.
As pernas doem. Para onde foi, andou?
Mas a dor imobiliza. Estática no silêncio da casa ao lado, muros altos, novos.
Desde o dia em que o vizinho as deixou.
Ela, sem móveis, tomba. Mas o que tão de histórico pode ter?
Um violão encostado: histórico.
Um coração (só hoje) quebrado: histórico.
Um não-saber-nada homérico. Históico. Pré-.
A senhora cutuca pra dizer que chegou. Ela olha pra cima. Será que um dia chega aos cem, pensa. Se sim, certamente cutucará.
E a senhora, será que sente o peso da existência e tem crises? Acredita que sim, certamente, e das piores, daquelas de saber que pode ser o último aniversário do vizinho com ela ali.

A casa vazia, muros longos, cabelos curtos, essa dor nas pernas, essa mente alta, de mente, desassossego de alma.
O morango diz: teique-me: meus pêlos, sementes, seu gosto.
Vermelho você diz: teique-me.
Circular que circunda o vermelho: teique-me.
O que pode ser. Olhos e a fixação pelos olhos.
Pêlos, olhos, sementes. Vermelhos.
Quero-te coberto com açúcar mascá-lo.
Teique-me no subúrbio da madrugada, de letra torta, garranchos de uma sonâmbula, preâmbulo do que podemos nós. Epílogo: você diz: teique-me.
Rasteja ao lado da esteira rasteijante. Teique suas malas, pego meus morangos.
Litros de saquê: algo.
Livi-me em casa. Sente-se, quero ver como sinto o morango com o saquê.
O gosto da realidade do mundo em cor-de-rosa.

30 de jul. de 2006

Teleférico que nunca tivemos.
Eu no 12, ela no 3, do bloco da frente ao meu.
Seria perfeito, uma cadeirinha vermelha andante pra unir as casas, as coisas.
Como a idéia do telefone sem fio.
Helena e eu compramos mil metros de barbante e duas latas de Elefante, pra rimarmos de longe. Eu subi no meu andar e joguei a lata da Helena. Mas quem disse que ela conseguia acertar a janela do 3º andar. E o vizinho do 1º chamou até o síndico.
(...)
Seus pais, depois de alguns, ganharam uma herança (eram primos e ganharam os dois) e a Helena foi para o Morumbi.
Ligou pra mim uma vez só, de um telefone sem fio, e disse que tinha ganhado dos pais um carro. E que foi ela quem escolheu a cor. Vermelha, como o nosso teleférico invisível.
E disse que ele seria a nossa cadeirinha.
.
Nunca veio me visitar, depois eu também mudei (mês passado), mas continuo usando as mesmas linhas (barbante e 509-M).
Talvez não precisemos mais de tanto espaço, um pequeno chega. E os outros eu jogo fora de tempos em tempos. Você, olha. Estamos felizes deitados aqui, com mãos e pés em vermelho. É que eu sou branca e então pombagiro e você roda de beleza de nós. Minha barriga, vermelha também, mas sem dor, só mulheres. Penso nela, nelas, nela, s, concentração para não estragar as unhas enquanto escreve. Vou nelas. Amo o prata, com pedra, preta. As unhas carmim. Meus olhos vermelhos, sangue. Filtro, só branco.
.
Seu tamanho é descômodo, ou incômodo. Nem mais nem menos, ruim só.Encantada com o dia, compreensivo. Algo tão bruto, tão superior, cheio de boas notícias.A falta de ideais. E quando vem um gesto, vem um brinde. Em sentidos outros, diversos. Comemorado.Deixa-me à vontade, com.
.
No dia lá, histerias, quis sair correndo daquelas plantas. Foi como regredir ao passado, ao útero, mas com o mesmo tamanho. Péssimo.O pesadelo de acordar no jardim da infância, com a minha mente, meus conhecimentos e meu corpo. Mas não ser mim e ter que passar por tudo de novo. Pregui.
.
Receio do dia. Falso que era, foi. Resquício de ideal, tenho o querer, mas os fatos dançaram. Foi rápido, antes não, pois era como quando a gente fica esperando a água ferver, e ela nunca ferve. Fervura da água quando se olha: não vem.

27 de jul. de 2006

(Pagadores)
Do dia pra noite ou da noite pro dia, não sei bem de quando pra onde, de onde pra quando, vi outras cores debaixo do autidór, encostadas num poste.
Parecia propaganda de alguma coisa das boas. O sapato combinando com a parede, ele, comigo.
Passei de carro e fui dar a volta no quarteirão, essas coisas são assim.
Mas,
contra-mão, contra-mão, contra-mão,
que país é esse...
Dei a volta no mundo, ao, voltei, já não encostava mais no poste. Esperava-me passar.
Então, deu sinal para o meu carro preto, eu parei, taximente, e falei a minha verdade.
Que tinha dado a maior volta só para vê-lo uma vez mais.
Ele, então, disse a sua: fez promessa para eu passar novamente.
(...)
Hoje saímos pela quinta vez. Eu a pé e ele sem ligar o rádio do carro até o dia 7 de setembro.
Isso que é sintonia.

26 de jul. de 2006

Lago de lã caiu em si, amaciando
Ovelha líquida desenrolou o novelo de mar de claridade, possibilidades, odes à cor invisível
Ostensivos arrepios adoçam a selvageria dos terrenos
Bolha quente no frio molhado
Berra: seca e corre e bale
Resto de calor primo.
Querer aqui, nadar de costas contigo

22 de jul. de 2006

Primavera-bougainville da janela.
A ilusão pertence a quem ouve falar e deduz, com coisas rasteiras, lugares e fases comuns. Não, cabe muito mais do que isso na colher do lado.
Colhe em canteiros de plantas frondosas. Como massa para flor.
Seduz os passantes, iludidos por olhos, não por pães sem sal.
Falo, fala. Quem ouve demais falha, a culpa não é sua, eu só conto.
Só mudamente.
Seduzo o português, em outra língua, sabe-se lá.
Sei do raio da rosa da criança de patins, paralelepípedo da casa de chão. Cinzas.
Quando chove, preta. Pretar.
Te preto a cara e chamo pra jogar sobre o verde da porta ou do feltro. Te filtro bem. Purificou-nos o dia em que, seco o chão, borboleteamos por sobre o muro, o tempo, ambos cor de peixe.
Primaveras sem espinhos não têm.

16 de jul. de 2006

Subindo a escada de massinha clara, com pequenos brilhinhos nela, a porta é a da direita.
É uma daquelas portas grandes, mais larga do que o normal, que tem um olho-mágico. Aliás, por falar em mágico, o lugar tem o dom de fazer com que quem ultrapasse a madeira escura se sinta muito bem.

A porta faz nhéc quando se mexe, barulho da preguiça que pegou do antigo dono do apartamento, devia ser um senhorzinho magrinho, que gostava de tomar café-com-leite e bisnaguinha à tarde. Certamente ele ligava o rádio às 16 horas e ouvia o programa de jazz instrumental até o pôr-do-sol, enquanto molhava a bisnaguinha de leite no copinho morno. Ele já tinha corrido muito antes, por isso, hoje, ele vivia esperando o rádio ser ligado por ele às 16 horas.

Mas, o chão é o meu chão preferido, de tacos, uns claros, outros escuros, e, pra ser sincera, não é um lugar muito grande não. Uns 50 metros, chutando alto, mas dá pra jogar futebol com a bolinha feita de meia enrolada.
Da porta dá pra ver o apartamento quase inteiro. À direita está a cozinha, de chão vermelho, coladinha na área de serviço (um varal e um tanque). À esquerda o quarto, o banheiro, um armário e, em frente à porta da entrada, a boa e velha sala, com a sua janela grandona.

A minha casa terá o meu jeito e será só minha e da gata. Aí um dia, quem sabe um dia, eu possa pensar em dividi-la com alguém especialmente combinante conosco.
Por ora não. Resido na cabeça minha, sozinha. Eu e a gata Mi(m)(nh)a.

14 de jul. de 2006

Brigadeiro é meu docinho.
Seus dentes brancos são a alegoria do meu viver.
Pra ele cozinho o que seu querer pede, dou de beber, enrolo seus charutos, massagem nos pés.
Meu heróis de batalhas inventadas.
Pra me fazer graça, ele me bate continência quando volto da feira. Brigadeiro gosta de pêssego, diz que sou um. E à noite arranca a minha pele para repousá-la, como santa, sobre suas unhas.
Minha sala sabe tanto de você. Seus gostos e horários, a cor da sua pele, seu falar.
Meu quarto sabe tanto de mim no escuro, na saudade, no chorar ao lembrar do gosto das alegres horas brancas.
Nossa casa de um dia teme pela chance de ruir.
Pequena, real, por entre vozes azuis.
Ouvimos perfeitamente.
Mesmo que não seja, é.
Sei de coração o que vem do ar que soltas em forma do que nos alimenta e separa e junta. Noite que não cai. Sorri-de-perto.
Teu jeito reflexivo não sai do meu pensamento e eu sequer lembro dele.
Sei bem ainda como me senti quando ele encontrou-me. Um raio quente de cortar a carne minha.
Penso nas idéias descartáveis que já tive, fujo delas, escondo-me, mas, às vezes, as danadas ganham de mim de lavada, de zero mesmo. E você fica aqui, ao lado, tocando a ponta do meu ser.
Te leio dizer que não. E sim, quero mais é ler e inventar o contrário.
Ricocheteia,
Chato.
Aranha de ti, enredeia cavalo, meu!
Come grama paulista
No birote do cabelo de avó.
Não vou, já disse.
Foi quando você sorriu a derradeira carta de amigo.
A mim.
Trova chora amor,
Nada me importa mais.
Trova chuva dor,
Nada mais me importa.
A última se foi e, em menos de mês, coou.
Pano duro e rasgável – limite da razão.
Ao invés, o que passa é cascalho ou pedra (em líquida face ou versão).
Troco enxergar por viver.
Ensinam a dar o laço no cordão do sapato, mas ver não se demonstra em diagramas.
Quem tudo tem pode bem não saber a um palmo, olhos roxos para frente. Tanto que apanham...
Despem-se da responsabilidade que cabe ao detentor das pernas e braços.
É inadmissível cegueira assim.
Vejo no ponto outra voz. Vila de quem pensa no valor da vida com graça.
Homem doce pede perdão pelo açúcar que despeja nas almas de algodão.
Adora-se, queimadinhos.
Vila que caminha pela praça deixando cada um na sua.
Com 15 ouve o locutor dizer aos ouvidos que a noite choverá.
Aos 40 lê os centavos da maçã descerem.
Paralelos no enquanto.
Quem dirige é quem diligencia a favor do vento que sopra na direção do peito que importa.

Mão sobre a letra - apega com agilidade.
Ando romântica esses dias.
Seu nome é claro, todos sabem. É um nada cotidiano, que rima.
Por ele menti até para mim. E conto. Um. Dois. Por aí.
Eu não soube como não me apaixonar... Mas não confio em esmola de mais.
Não que seja santa, mas sou uma despreparada nesse quesito.
(Ão com ão: dã)
O que há sem seu ombro pintado
Seu peito molhado
Por trás: elefante, garoto gigante
Cabelo pro lado, meu gato alado
Perturbador
Estivador
Aficionado
Moreno curado, te quero deitado
Ao vento do ventilador, espelho sobre o aparador
O quarto calado
Vida vazia sem você ao meu lado
Nem te gosto mais, sabe disso. Queria um beijo de novo, desses sem compromisso, num dia normal, desses sem aniversários ou ataques, aqueles dias em que nada poderia acontecer. Nem sei pra que, certamente algo que foge.
Tua nova fase. Palmas para nós. Me ajudou a ver de fora, eu vi. Não tem pé, não tem cabeça. Prometo querer aos pouquinhos. Chega de pirotecnia.
(Declaração)
Ímpar. Mas um par. Cada qual com suas cartas, respeito-te. E seres, antes de tudo.
O tempo da minha vida, contemporânea a você.
A cor do mel dos teus olhos derretem minha barriga e assim derreto a sua, derreto-me na. Quebra, conserta, concerta, me faz cantar no trânsito, na simplicidade de um dia de chuva, na.
Mando embora tudo o que houve, pessoas da sua frente, mostro-te o Nilo, nasço de novo. E reescrevo a história da vida, poupando-te lágrimas.
Arrais amador, torna-me amante, ata-me. Nosso bem nosso. O encanto do possessivo comum.
Navegarei no seu rio e catarei as pedras, o caminho que deixar, se deixar, se houver. Se.
Hipóteses me namoram. Eu não. Nunca. Ainda não o conheço, mas eu exagero-gero-sigo.
Um castanho, uns olhos estranhos, Minas no sul da rua, te queria chorinho, desde que sorrindo.
Um dia de cristal, transparente e que reluz ao sol.
Do branco eu vejo passar o pequeno velho correndo devagar.
Da rua sinto o calor da casa, o abraço de boas.
De dentro de mim: sorriso.
Olha o céu, corre. Não sou eu que digo. Respeita, tiro o chapéu, senta.
Um dia de cristal, com anos de duração como boa pedra.
Deito aqui, ali, e vejo meninas de azul e branco e mochilas crescendo pela manhã, crioulos no malabarismo da cor.
A noite diminuiu, é meu período solo.
Um dia de noz, calórico, em pleno julho.
Queria (a) vê-la suando na terra. Viva por ser.

9 de jul. de 2006

Seria demais dizer que sofro. Não peno. Quem tem é galinha e eu quero mais é voar.
Galinha não voa. Só sobre e as pobres são lindas demais, queridas desde sempre, adorável d´Angola.
Preta com bolinhas brancas ou não: pontos de vistas.
E assim, vê-se por outras diversas e tantas janelas o mesmíssimo quadro.
O otimismo que já prendeu, hoje é bênção pois faz sorrir e pensar em como são lindos os pequenos vôos.
Pequenos como os de galinha, mas apenas pela falta de prática e não pela impossibilidade das asas. Ando meio enferrujada.
Só isso.
Te ver foi como voltar pra escola
Brindar com vinho a casa nova
Correr de jeans e não ser bobo
Mentir sem agressão
Vestígios de ses
Caso fosses
Perdido
Mas continua a ser o homem
Mais bonito do universo
Moreno de ouro
Abalei ao te ver
E ouvi-lo dizer que o que queria estava
Na sua frente, em exatos um e cinqüenta e oito

Há sempre uma ferramenta para cada situação.
Meus olhos ardem de tanto que eu chorei. Naquela tarde comemos sem ver o que era aquilo. O que valeu foi o ar do lugar. Nem reparei no endereço.
Suas mãos. Os ombros.
Saudade de sermos um casal de anjos sem asa. Sob a mesa as migalhinhas do que foi vivido. Pequenas amostras do que seria viver no paraíso, ou no Centro.
O tempo correndo contra, nós fugindo. Lados opostos na hora do adeus.
Vontade de voltar a seguir o mesmo ladrilho dos teus pés, encalço.
Voa para mim alma. Pede pra ficar, atrasar, parar o tempo, voltar, no tempo, tudo tem o seu.

1 de jul. de 2006


Eu vou.
Regina rainha amo a minha
Olho nos olhos doces e tenho dó de você
Mulher dominação dominada não dominante
Sua dor é latente mas eu vejo
Fora daqui com isso agora
Senão morre e eu não quero isso

Regina rainha amo a minha
Ela e sua loucura doce caminham
Lado a lado com livros e o cão
Livros dedicados a ela

Regina rainha amo a minha
Já te cantei como santa
Hoje te vejo baqueada
Queria impor as mãos e te curar
Levar-te para a grama, rezar, regar

Desejo tanto bem e quero te ver feliz e te enterrar com o anel que você me deu de herança num momento de loucura. Os brilhantes são seus, a dor é sua, quero-te livre da mordaça de ouro e que o brilho reflita uma moça que não passou. Pelo que você passou.

Regina rainha amo a minha
Antes disso reduzo a mulher elegante
Boto-a na caixa de remédios italiana
Brindo pelo encontro de sempre.
Cura-te a ti mesmo. Volta sã.
O cobre da tarde cinge-me. Encolhida-mim pela grandeza de ser. Mundo. País sobre as patas, suas duas, sem paz. Louca que não rompe aos dez graus. Vejo-me subindo a escada de mil pedras com vocês.
Mãos dadas circundam os extremos, penso que seria pouco, ou nada, sem os olhos conhecidos, os ombros que dão aos outros mas não o resto.
Faz falta ter um. Regalo-me com vinte: sorrisos, líquidos, mesas.
Vida em porções. Eu estou satisfeita.
As que me importam têm seis letras. Bastam-me. Regalo da vida.
Mão de fogo. Calor que cobre nosso dia. Vermelho.
Eu sou você quando dorme.
Vai vai, chega disso.
Despeja o regador em cima disso e olha pra frente.
A florzinha cresce, fica maiorzinha e vira árvore.
Não, talvez não assim.
Diz-se que muda vira árvore, flor não.
Sobre sintonia, as verdadeiras nuances da vida, afinidades. O que faz com que os afins se unam.
Não posso com lugar fechado, cinza no chão e paredes altas, com máscaras e música ruim. E olhos claros demais emoldurados por cabelos escuros e novos demais, mas com idéias tão singelas que não valem a minha saliva. Não entendo qual é mas hoje eu quero falar mal, e vou, porque posso. Uma pessoa pode tudo e espíritos livres aglomeram polvilho.

Falar de cor, já disse. Falar de contra, disse. Já foi dito. Mas diz o dizer, fala do quê. A letra do alfabeto. Aguardo a minha Roberta na vida.
Ascoltami, ritorna ancor ti prego.
Se eu te pegasse num dia como o de hoje, te emagreceria e te faria me engordar.
Era aniversário seu e ela ligou terminando o n)amor(o. Pôs os sentimentos na batedeira e precisou de um dia inteiro para conseguir colocá-los na tabela. Primeiro feliz pelo toque, ´pois estranheza pelo tom, então susto pela notícia, aí dor pelo fim, lágrima pelo frio. Dor, dor, dor, por um, três dias, sol, lua, sol novo, um ano passado e ódio. O que ficou. Como se aos seis anos a mãe criticasse seu gigante de batata, ´pois superação. Mas aconteceu, depois de tudo, tudo outra vez, mas era uma ela com outro sobrenome.
Uma mulher negligenciada mata. Não morre, nunca. Não se arranha mais do que já está. Ela fere com unhas e dentes e arrasa o que acha.
Uma mulher negligenciada tira forças do útero e acaba, desbanca, se vinga, e aí sim, só depois, sorri e, calmamente, o sol sai de trás das nuvens do pouco-caso despendido a ela.
E, depois do caos, a mulher está nova, outra, sabida, pronta para ser novamente negligenciada e voltar a ser o que sempre foi. Uma que não sabe o que quer e que precisa de alguém que lhe diga:
Que a ama
O que fazer
Como pensar
O que ouvir
O que ser:
Uma mulher negligenciada.
Sua vida hoje é escrever. Dizem.
E hoje ele não escreveu. Deve ter se perdido em algum dos cantos de si a eloqüência que era o mato de ontem, hoje, rara pimenta. Não há.
Pede: esqueçam-se de mim. Hoje eu sou eu, só isso, e, talvez por isso, sinta essa tristeza infinita em mim. Não por ser eu e sim pela constatação.

E o deixam. Com suas unhas grandes, os cabelos grandes e a barba até o pé.
Cumpriu.
Roxo
Passa o centro pra trás. Eu quero passar, mas não quero que isso me aflija. Que tristeza imensa eu sinto nesse fim de tarde. A incerteza do amanhã, sendo ele amanhã mesmo. Será que vou, será que fico. Disseram que seria o fim. O meu, ali. Mas nada fiz. Tenho muito mais fé no meu taco do que em qualquer santo de pau. Mas peço a são jorge, para que cuide disso para mim. Delego.
Por que existem essas coisas. Não pego. Qual o prazer.
Onde andam aqueles de lá. E os de cá. De repente você percebe que nasceu sozinha e que isso é algo que você deveria ter descoberto antes muito antes dos dez. Mas aqui está, já feita, chorando no canto e pelos vários de que é feita a sua casa. Sua, vírgula.
Nada do que tem é seu. Ainda não. Nem esse corpo, o qual, aliás, nunca o foi. Teve sempre mãos sobre ele, dentro da pele, fazendo graça para chamar atenção.
A vontade de morrer no banho não foi boa o suficiente para levar-me ao box. E pasmo ao ver o relógio caminhar em voltas e já é amanha e, hoje, mais um dia meu que perco por ser idiota. Ser estúpida: qualquer pasta me faz tremer.
Deve ser o frio. Nunca funcionei na neve. Somente com correntes. Sou pneu da vida sem vida.

Tantas palavras na mente. Preciso de papel, do barulho da grafite. Expulsar o barulho de dentro de mim. Esquizofrenia.
Despretensiosamente Miriam não pode me ver na frente. Nem ao lado.
Meu sorriso a faz correr e o que peço com jeitinho não faz. Se a mando, desobedece. E eu amo.
Deliberadamente. Por ser ordem minha se esquece de lembrar.
Miriam é má. Maleducada Miriam.
Ela e seu nome de farinha.

Nossa hora não é essa. Nem aquela, por ela, não há hora. Eu não vejo.
Ainda deve ser o que não é. Tento.
Pego sua mão e a levo para comer milho verde na estrada.
Sua vontade é o meu prazer.
Dobro o meu corpo sobre ele mesmo e alcanço do raso uma flor cor-de-rosa
que maria-sem-vergonha chama.

Maria queria ser mulher
Miriam é pedra
Eu, morro, e calado de Miriam e Maria bóio
Mudas de mim
Parece de propósito e, a propósito, sorri.
É a única que com gênio decide o que quer as três da manhã. E faz.
Eu, resignado, obedeço.
Quer sair, quer entrar, abro a porta. E desejo o seu bem e agrado.
Ela sorri com seus dentes pequenos. Impossível. Eterno devoto.
Peles diferentes, combinam. É meu cachecol para os dias frios.
Não permite meus olhos em outro lugar. E deita-se sobre o jornal, faz barulho, derruba e quebra. Mas seu som de festa desestabiliza. Um sino dobrando os joelhos das pessoas por onde passa.

16 de jun. de 2006

Algodão. Pluma. Bebê. Arroz com ovo. Casca de ovo de codorna. Suflê.
Linho, folha, pêra, água com gás.
O sol das cinco da tarde. Conversa na varanda. Dormir na rede depois do almoço. Boiar no mar sem onda. Champanhe.
Nuvem, salada, pétalas, paina, fumaça, aroma, melão.
Risada de quem se gosta. Carta de amor. Papel aéreo. Fotos coloridas do céu.
Um passarinho, chocolate aerado, ensopado de peixe, eu.

Hoje só coisas leves pro meu dia-a-dia.

15 de jun. de 2006

Vai dar tudo certo. Ama o mundo. Tudo é lindo. Não entenda direito, mas aceita, é. Qual o objetivo? Não sei ao certo, nem sei se há: o certo ou o objetivo. Bastava ter saúde. Não é mais assim. Vem sal que aprisiona e liberta. Ainda mais para alguém com o mesmo histórico que o teu.

Reprimida, com pressa, te comprimo, irmã, no meu muro. Abraça-me até passar que te deixo ir – embora – não minto. Deixo sua bile escorrer sobre meu gás. Disposto a tudo. Digo a verdade. Dito nada. Vulgo: silêncio.

Busco quem tenha saúde, goste de formigas e de cebola.
Saúde porque é preciso. Formigas pelo egoísmo de querer alguém para mim, no plural. E cebola para ter pelo que brigar.
Vou ao parque senão para correr. Conversar com ela e esconder de você esse sentir sem rotina, por entre árvores. País sem bosque de onde vim. Mas vou ao encontro de um oásis de selva. Penso em lençóis sobre a terra. A mesma que foi ressequida pela falta de nossos pés. Ela me aceita. Sem perguntas. Quando digo “agora não” ela balança a cabeça em forma de sim. É isso.
Poderia ser mais claro, por favor.
Fale mais alto, não entendo.
Esquece então.
Claro, alto, esquecido.
Assim somos plurais.
Prefere capuccino a leite e peru a presunto. Balde repleto de quereres não-convencionais.

Você era menininho quando te conheci, nunca tinha ido à esquina sequer, nem dormido fora. Aí as pernas cresceram. Alcançou o banco, postou-se à mesa, pediu cerveja no balcão e tocou os bairros vizinhos.

Eu: limitrofiada. Por amor.

Sinto falta do inferno que se chamava nossa casa. Ninguém mais me visita. A alegria se foi, os jogos de futebol às quartas. Casa cheia dos seus amigos odiosos. Saudade.
Sua reclamação constante, de tudo, teus olhos castanhos, a pele.
Rodopirueto sobre minhas próprias tripas e te amo ainda, dando-me, coração.
Peito de aço – mente de borracho.
Apaga o que foi, muda o tempo verbal, volta pra mim.
Ontem fez 14 anos que não choro. O português pode estranhar, mas assim que é. A última vez foi na morte de um amigo. Não, melhor dizendo, colega de trabalho, mas com o mesmo nome que o meu, então chorei. Não por ele, infelizmente, mas por mim. Pensei que podia ser eu ali, mas as lentes diferiam. Ele não enxergava era de longe, eu, de perto.
E não chorei tanto há 14 anos.
Ontem não chorei sequer para comemorar a fonte tão seca.
Hoje queria: tristeza profunda na bolsa, pesa-me a cruz da falta, mas não consigo.
No banho tento, na chuva idem e nada: piscina, mar – eu seco de olhos.
Crio clima para a inércia que não há: sério. Nem triste nem feliz. Sério.
E uma vontade imensa de tirar a mala das costas, os sapatos – massagem, por favor – sentir-me em casa deve ser bom, repousado, querido por mim.
Porei as gotas no copo americano e beberei aos deuses.
É isso: não quero que fujam, nem de mim. Egoísta desde pequeno.
Somente vivo entrelinhas: talvez devesse ser mais exposta, em pequenos pedaços. Sereia eu, seria. Fritaram-me. Bolinhos de ais: ai de mim ou mandioca. Especiaria de índia, em postas. Mil linhas enredadas pegaram-me. Aí: garras de arame na boca, violino, anzol, o canto que seria meu, em pílulas, inflou.
Em ameaça: dobro de medo. Sereia de joelhos sobre a vara. Tremo qual uma verde.
Imatura forma de laço no rabo: peixinha de madame.
Dai-me paciência. Santo, preciso da palavra que me dá.
Cruz ela, te encontro, muda fico, raízes na areia que nos move.
Pêlos negros se luta, carne clara em exposição sobre o gelo para não estragar. Partem-me, sem sangue, e depois bóio de lado. Olhos vidrados que comiam e se quebraram por fim: mão única de filha solteira que nada nada nada. Peixe sou.

13 de jun. de 2006

(i)
Palhaço faz de tudo para me fazer feliz. Sua graça vem de cima, rápido no gatilho, sobressalto. Rendida, mãos no alto dos cabelos finos.
Quando conheci estava de azul (como deveria sempre estar), todo, dos ombros aos pés, reparei nos sapatos e gostei.
Isso já importou, foi, e mesmo antes tiraria nota boa. Caso fosse escola, mas não é. E é de cortar o coração eu sonhar por outros caminhos. Bate-estanca: coagulei (alívio).

(ii)
Nunca vou te mostrar do que sou feita. Pulmões, pra você, rosinhas, os dois. Eu na superficialidade necessária para poupar. Qualquer imperfeição causada por uma pisada mais forte deve ser imediatamente reparada com um punhado de serragem que chupa a umidade em excesso, nada de excessos.
Resultado: jogo um bocado nos meus olhos antes de te encontrar e pingo gotas negras de corante-colírio ou vice-versa. Eu marola, permanece. Se divago, mergulho: some.
Nunca verá que a real cor deles é vermelha, como o seu nariz. Cor de sangue quando corre, de homem quando foge. Cor de fogo quando... burra.

(iii)
Sou homem, mas sinto. Como da vez que você disse que não amava mais não. Juro que não entendi do que você era feita naquele dia. Parecia enxofre, pelo cheiro, mas era mel de se olhar. Do mal. E era meu aniversário, aposto que não sabia.
A sua falta de consideração, tremenda, sempre dobrou a esquina. Eu, no cabo da falta de esperança (total) era rosinha, como o teu órgão. Dedos longos, pianista.
Depois de uns meses te encontrei como você queria ser achada: encolhidinha. Uma pombinha no frio de agosto, pedindo para acolher, esquecer, ninha-me.
As pupilas crescem, peito incha, e eu, dono do sapato grande e suspensório azul te pego. Bobo da sua corte.


12 de jun. de 2006

Veio devagarzinho como quem nada, ´pois, pousou a mão direita sobre o ombro esquerdo da senhora que a fez. Sorriu e baixinho cantou: desculpa.
A mulher, de olhos baixos como a palavra virou de lágrimas, a vista sobre tal, ficou em pé e apertou quem quando veio aos seus braços pela primeira vez media nem o molde do vestidinho de boneca. Mas, naquele instante, era de tamanho maior que o país.
Um contínuo desfazer e fazer viviam. Passional, a filha.
Mas a mãe a entendia como ninguém, pois nos olhos diversos refletiam os mesmos traços seus.
Assim foi até o final: com lágrima e pesar despediu-se da menina que cresceu da hora pro dia.
E, logo após, a mãe se utilizou dessa mesma desculpa para morrer.
O menorzinho não tinha idéia do que acontecia. Estava em casa com o primo e passou a ouvir barulho.
Zum zum zum e “avô”.
Zum zum zum e vovô.
E, zupt, eles se foram, ambos: menininho pra casa do primo, avozinho pro céu.
Relembra daquele auê ruim que sentiu naquele dia onze, acha. Onze de algum mês que esqueceu. Ficou o zê.
As irmãs dele, aparentemente, nem aí. Talvez não fossem tão pequenas a ponto de se preocuparem com avô, mas ele sim. E, na casa do primo, ainda assim, ouvia o zum zum zum.
Morte em forma de abelha que picou pra sempre. Descobriu depois que foi por causa disso que ele nunca mais visitou o predinho com pleigraun. Sentia saudade, tanto da barbinha branca quanto do supermercado que ficava no térreo.
Engraçado como são as coisas: depois de uns anos passou pela mesma rua, hoje tem feira por lá, comprou um pastel e uma garapa.
Almoçou ao lado da lixeira e moscas sobrevoavam o céu.

11 de jun. de 2006

Escrevo com a pele que é o que de mais externo tenho. Penso com cabelos, fios marrons que fabricam lar. Quero a superfície das coisas. Res. Se não sabe, não condena meus porquês.
Mais suave um não que um porque.
Carregaria no colo e cuidaria da moleira desse sentimento que remete ao dia.
Querer sobre a cama de palha feita.
Vontade de comprar um reino, ou um cavalo. Ou o que quiser: te dou.
Estilo único, frase batida, mas não nesse caso, para mim é sério.
Desperta dor na minha garganta e é indolor. Anestesia do dia-a-dia.
Depois saberei chegar ao ponto, cicatrizial.
De volta para um passado, faria diferente: cultivaria mais histórias em comum, mais razões. Um pescoço grosso, de costas: um touro que no verão avermelha, por certo.
Não te tiro da cabeça e perco-me no contido em linhas sem rumo, assim que sou.
Tonta que busca cura, o brocado, brochura de antiguidade, renasce em cigarra e canta a formiga. Rezo pelo teu sorriso.

10 de jun. de 2006

Faz-me rir ao apontar para o céu e assoprar a minha barriga. Um dia fui inteira. Restou frangalhos. Uma existência super interessante. Falou da vida que teve, ela, de persas, bacarás e respeito. Onde foi?Isso deixa-se passar, sem poder. A história se repete.Como te quero bem, com seu cabelo iluminado, a idade, 41, disse, eu daria mais, mas pela consideração e não por nada. Te quero bem, já sabe.Senti sua lágrima fraquejar na ponta dos cílios. E ela voltou para dentro, sem mais.Adoro-te como a uma criança, seria incorreto não te dar essa manjedoura. E me contou histórias, inventadas ou não, sobre o que viveu, onde foi, o que sentiu. E ainda que me ajudará a completar o meu museu, dará quadros que pinta ou outros.Ontem deu-me gatos azuis e musicais, a ver comigo, foi o comentário. Sorri de ponta a ponta com o presente. Sim, acho que isso já vale a vida. É disso que somos feitos: daqueles segundos eternos em que me deste o quadro.Sinto que já valeu o temor, o terror, por te ter.Mas não cai bem esse sentimento a ti. Mulher, veja-se como uma. E uma que é. Fantástica.

Preto, te quis o negro, sorri de lado, à lápis, querendo-te frio. Ganho gatos musicais azuis que valem milhares de ares condicionantes. Doutrine-me-not.

9 de jun. de 2006

Silhuetas na parede, o casal vermelho no papel. Um lustre de cor leitosa, uma pérola. Minha gueixa de olhos verdes desapareceu. Uma alma negra com buracos brancos ao invés de olhos, claro veludo.
Pele na sombra, mulher à solidão. Prato para dois. Ou três. Adivinho.

8 de jun. de 2006

Cretino de nós, o que vale é nada. Não troco fortuna por caderno. Desisti da música mas toco-me por meio do nanquim que antes era vendido em vidrinhos quadrados e era o terror das mães. Nanquim não sai do branco, filho. E não desgrudou do meu peito em forma de brasão da escola. Virou mancha-ruga da roupa. Com quarenta, meu reflexo de nanquim permite-me um suspiro em branco.
Dói a barriga, preferia que fosse as costas ou o tendão.
Dói quando respiro mas o que fazer... Tem-se que viver um dia e outro até os dois anos que nos separam e que chegaram hoje. Parabéns. Mas não foi assim sempre não. Houve felicidade e pelas exatas razões: o espaço que tenho, o silêncio que faço, o eu e eu, sem você e por aí.
Depois de dois, divide-se a história em fragmentos menores que areia, disse um chileno (ou será inglês?). Mas é que eu tenho uma estátua sua, de marfim, bem no meio da minha sala...
Outra real é que sou ruim em novidades mas fui e não volto, ou sim, só que mudado. Transpassarei o mar, o fim.
Talvez nesse aniversário você não me reconheça. Aviso: estou de preto, como sempre ando, e mancando da direita pois caí do cavalo, sabes... O meu calcanhar de Aquiles (ou dessa). Mandei-te carta, na época da dor, pra ver se te condoia. Qual o que. Você nas varinhas, camisinhas, nem foi.
Mas bom te ver.
Dói-me menos. Só quando Rio.

5 de jun. de 2006

O amor: para cada, um.
O meu, que não há, tem a ver com libélulas e querer bem por vidas. Quando for (diz, respeito).
Logicamente há o algo, o inexplicável, sem nome que é o que faz a diferença querer. Americano diz it. Respeita-se um tudo, mas ti sem it é amigo e só.
Não sei o porquê, pois tremo, escondo mim entre pedras de que já foi feita ela. Não eu. E, como elas fazem, espero a maré ou subir ou descer, dependendo da vontade. Se quero seco ou não: desejo.
Amo um eu de vapor, tornado real de vento e idéias. Talvez no útero permaneça sendo o ser de sempre, mas o reflexo difere. Conta de milagre, pães, de peixes, colar de sins. E peca num espírito despido de preconceito, preceito e demais pé que haja, alça o sol ou a lua, qualquer um, desde que, alto e longe, seja sagrado, bendito.
Uma mandala, algo de círculo, linhas e sentir recolhendo-se as flores do centro da bola. Uma vida. Flores redondas indicando o norte.
Não amo as rosas ao vento, mas me é defeso negar a beleza que delas vêm e o belo que contam por sua imagem de doçura e espinhez e cores diversas. E a vermelha do amor, símbolo de outros. Símbolo ainda.

Digo dos olhos azuis e do começo sempre verbal. Diz: pra que a exposição. Ti, sempre o melhor com o barro, escultor de mulata de lábios vermelho-rosa.
O melhor ator, marido, ouvido, de mãos correndo pela corda, nossa varanda de latão com a chuva de percussão embalando idéias. Os outros olhos azuis, do cantor, dizem em francês o que ninguém confessa, mas que ti-mim deu numa noite de terra batida no céu.

Incrível ser.
Incrível.
Prazer, meu nome. Bastou. Em minutos era ti nu, batido. Com frutas no depois. Larguei-te no porto, com vinhos e parti de volta para o apartamento-caverna pois você sempre morou em casa. Um joão-de-barro, mas com necessidades. Passarinho.

A gangorra de mim e ti, quando solta, bate no chão.
Quando eu solto, tu prende e depois de segundo sinto-me mal e paro. É tua vez de língua bamba, dá corda. Eu silencio mas não sei se te diverte ou sente-se mal, pois que isso passa do convencional.

Com nome de deus egípcio minha lua segue a tua rota elíptica do ti apocalíptico.
Acaba quando parte o copo em três. Brinca com as notas de baixo, da terra, me olhando ao sol, do banco em tê de ti, de nós.
Os anos te melhoraram, caverna de si, estalagtita, estalagmitando o meu limite ali, a ti. A sim.

4 de jun. de 2006

Com a alma costurei. Peguei uma linha de nailon e fluí.
O pano encostado na pele gentil roçou o nariz do gigante. Partiu.
O vagar das mãos, vago lume ao longe, miúdas.
Lentamente minha alma desloca-se do ar. Maluca ela.
Até o fim do dia dançaremos por sobre as águas.
Alma, leve daqui o uniforme de que sou. Feito.

3 de jun. de 2006

A sombra é uma das coisas mais bonitas do mundo. A luz, outra. Complementares e belas como deve ser. Distintos, lindos, não-opostos. Quem pensa que a luz, mesmo na velocidade, é contrária à sombra, erra. Feio se elas somam às belezas do ar e do chão. Oposto à luz é o nada. À sombra, o tudo. Mas quando vir o tudo e o nada juntos dá risada: também são complementares. Moram do mesmo lado da calçada da vida.

1 de jun. de 2006

Tudo feito de mentira tão grande, tudo. O que é real é o que eu vejo. Só isso. E eu sou hipermetrope e tenho astigmatismo e sonho, às vezes. Não suporto mais essas horas perdidas pelo ralo dos dias, olhando para um nada que brota do fim. Tudo é sim e não. E viver é o rito do não. E do sim. A ira peca por ser talvez.
Roda-moinho, grita.
Redemoinhos de fim.
Um trem que não parte não vem, sem nem um tom de cinza, de bala. Tudo fere, pelos lados, a gordura se espalha feito moto no fim de tarde. Rodopio por sobre o lar das moscas sem pena. Efêmeras vidas sobre o mar de iras. Cada qual no seu barco de talvez.
Braço que me falta. Pra onde vão. Peço que voltem. Onde foi a vida e o sentido que não tem, que ´tava aqui. Mas se não tem, logo, não foi e não volta e não vem e não é.
É mentira, como disse, tudo, tudo o que eu vejo.
Dor pela falta de olho. Cega pela dor que não tem. É raiva pura por se forçar a ter que passar por tudo de unha pintada. Pra onde foi a goiaba que o verme roia: sonhou. Vida e sentido. Virou doce e o gordo roeu. O rei matou, o rato quis um casaco naquele tom de goiaba. Dá. A tristeza de volta, pula a janela. Mas moro no segundo andar. Melhor assim, no quente: antes a dor doméstica do que os dedos para mim. Confundo mesmo quem sou, quem é? Dlindlon. Tim é o nome do pai, Tom, o rei do circo. Disse que vive na câmara do rei rato do coração de ti. Ele nem tchum. Tá. Qual é então.
Mameluca luta contra. Promete sumir enquanto houver tempo, leva o ácido feito para enlouquecer. Roda-lá-cá e age de menos. Promete fazer bem ao vini-vidi-vinci, Julio, pelas lentes da luneta. Querer bem ao largo do passo do palco de antes. Vida na manteiga: burro tu que insiste em ligar. Eu desligo pois sei das coisas que me envolvem. Se sei, sim, sou quem mata a mi a si a fá e tal quando nasço suicida negra. E quando parto levo outro cadáver no lombo. Um cego por querer.
Por onde vai o que virá, pergunta besta: não há. Mas em não sendo, apenas uma projeção, como existe no presente sendo o futuro um filme, desses que passam no escuro. Projeção, ora. Um cine longo, de horas, com Scarlett, Rhett, fim. Feliz ou sim, um end for sempre, um jardim. Talvez o último somente para rimar com os ms, o mim que até agora não viam. Quem é na tela branca quando pega cor, quem sou: alma minha. “Luz pura”, responde. Grata pelos aplausos, tudo no amanhã. E o hoje é tão quente – caldo, e calmo. Mais uma rima, mas do país do ao contrário, feita d´início de som comum: que. Ou isso ou aquilo, começo ou fim, mas com. Pois rimar, mesmo que não combine, é in-diz-pensa-vel.

31 de mai. de 2006

Uma felicidade em sacos enormes, enormes. Um balão sorrindo de longe, ao longe, ao longo de uma vida toda. Sempre por trás, mas ora pela frente, sempre um sempre fantástico. E a lua de hoje tão fininha que eu digo que soube uma vez que a lua que mingua é a unha de deus. Lembro bem do que pensei quando ouvi isso: que o mundo é uma coisa maravilhosa mesmo. Maravilhoso por nos dar a oportunidade de sermos contemporâneos a outras tantas coisas e pessoas maravilhosas. Por deixar com que a mente faça o que quiser com o seu poder único de ser líquida. Por podermos falar por meio de gestos, letras, barulhos, fumaça.
Sim, esse nonsense todo tem muito sentido para mim, mesmo. Penso em zepelim, penso em mim, penso nele, penso neles, nelas, nela, nos outros, nos de lá, nos daqui. E a unha mágica de deus continua a nos apontar o caminho do bem, como sempre fez. The long run.

30 de mai. de 2006

29 de mai. de 2006

Artinhas feitas de chuchu. O chuchu tem pequenos pêlinhos ao seu redor, parece pneu novo. Pêlos verdinhos e espinhentos. Aí se espeta mais quatro palitos de dente, de dois em dois, e têm-se as patas de um cavalo de chuchu ou de uma égua, pois, em se tratando de chuchu não se pode falar que o verde é de menino e o rosa de mulher. Não existem esses legumes em rosa. Aliás nem sei se o chuchu é um legume porque vivo num mundo em que o tomate é uma fruta. Tsc tsc tsc. E as pessoinhas, feitas de batata. Com palitos também e sem pescoço. As gentes sem pescoço são como as de batata. E batata é um legume, mas que tem amido (essa eu sempre soube). Desde o tempo em que eu e o meu irmão do meio ficávamos fazendo experiência com o brinquedo de química e jogávamos o liquidinho na batata e as coisas ficavam azuis. Um bocado estranho.
Mas não tanto como o outro experimento da época. O nome era “sangue do diabo” e era um líquido também, só que rosa muito choque, que você jogava na blusa branca da sua prima mais velha que já tinha peitos (e muitos, aliás) e ela ficava uma arara. Até descobrir que aquilo ali não manchava e, muito pelo contrário, sumia com o tempo. Mas já tinha dado tempo suficiente pra você (ou ele) terem apanhado muito. Sim. Mas aqueles tapas sem dor, porque não existiram.
E você lembra que tem uma tia distante que quando era recém-casada perdeu um filho ainda na barriga, mas já com idade pra se dar nome. Essas coisas. E histórias como essa te marcaram por uma vida, literalmente, que te faz sempre gostar dessas pessoas, por piores que sejam, desde que tenham algo de aborto, como chamam. E eu me lembro de como eu me sentia quando vinham com esses assuntos, antes diziam que havia pé descalço na sala, mas aí eu olhava pro meu sapatinho vermelho de boneca e pensava nas minhas. Bonecas. E em como seria se um dia eu ficasse muito grudada nelas e elas sumissem. Seria algo assim, como um fim. Mas a cara da minha mãe falando da tia longe era tão pior do que perder bonecas, que me vi obrigada a rever os meus conceitos sobre sapatos, tias e sobre sangue.
Foi então que lembrei-me do chuchu, esqueci do legume, peguei os palitos e entrei na boemia jogando palitinho. Meu tio, um outro aí, queria ter um bar ou teve, não sei, e sempre me disseram que palitinho era coisa de submundo. Então eu virei campeã de palitinho, sabia blefar e tudo, mas o reflexo disso ficou em mim, guardado em alguma gavetinha de criado mudo, porque eu desaprendi a jogar, e hoje, nem truco jogo mais, e não sei mais blefar.
É isso, por enquanto.

28 de mai. de 2006

Não gosta de perguntar o que não sabe responder e não gosta daquelas perguntas que apenas exibe o perguntante e testam o perguntado. Acha que isso não se faz. Não sabe escrever na primeira pessoa, acha mais fácil se ocultar por detrás do ele, do tals. Seus olhos ardem por terem visto ontem olhos claros demais numa moldura preta demais, nova demais e fraca demais. As nuances da vida são o que realmente importam, fazem os afins se encontrarem na mesma sintonia, como no rádio. Espírito livre aglomera polvilhos. Hoje fala mal mesmo e entende que pode porque está na fase em que a pessoa pode tudo, até mesmo falar de si e mal dos outros, de tudo, de todos, assim. Passou muito tempo (e perdeu também) pensando sobre os espelhos, hoje decidiu quebrá-los, todos, fazer uma farofa de praia mesmo, no início. Não vai e ponto final. Cada vez mais o velho sabe o que quer e como quer.
César e Ana se conheceram no hospital. Irmã de um e amigo da outra tiveram filha – Cristina – em primeiro. Dia de gente boa. E em seguida a cidade perdeu a luz, blecauteou em plena onze da noite. Ana Feínha, apelido dos dez e César, Augusto por força de batismo.
Mas amor não se traduz, só é contado por quem nunca viveu um. E na escuridão disso, daquele julho, um beijo daqueles, de cortar a barriga e fazer viver. Ana e César.
Gosto do seu jeito de respirar. É com barulho. Seu nariz não funciona perfeito, mas seus olhos são desenhados com nanquim. Índio, o que houve. Onde ficam as lembranças quando se esquece. Sinceramente, onde está. Recordo-me muito pouco. Como pude ser tão negligente com isso. Lembro-me da sua dor e de notas sem nexo de uma fase de luz, uma casa, sacos, um carro a diesel amarelo ouro, uma prancheta, uma rede. Como vai. como estará o que foi.
Uma tristeza que vem sempre. De quando em vez. Transborda do branco da minha alma liquida. São fôrmas ovais, sorrisos magistrais. E asas, gigantescas asas de pássaro roxo, translúcido de líquidos cítricos. Demorei uma hora para saber o que viria e como.
Passo anos lutando com. Não consegui. Até hoje ao acordar em dois. Dividida. Um copo de cerveja vazio. Um corpo e um ser. Uma casa de ar. Colorida com cores primárias. O vermelho, um útero em si. Num mundo cão minhas cãs. Por isso tenho uma gata bem preta que mia e sorri. A única da espécie.
(Possibilidades)
Gilberto dançando no chão, sorrindo no ar. Ilumina o piso e eu fico besta por querer tanto saber o que há por trás da gentileza e da calma. Deve ser belo, ainda mais. Jardim iluminado com o que ama. Não cabe em mim a hora de te sentir entre abraços, presença de perto, bem perto, quase tocando, e, finalmente, tocando. Poeta e pintor talvez e deve sentir de vez em quando todo o peso da tristeza do mundo em si e chorar por isso, mas, em seguida, ser feliz por se aceitar e aos outros. Deve sim.