ela na sala de espera, os pés irrequietos, balancando pra cima e pra baixo
era como um tic-tac de um tempo que ela sabia que não tinha mais.
ao pensar isso, optou por parar o ponteiro-pé e pos os dois no chão
os demais pacientes e familiares olhavam pra ela.
a quimioterapia destroi
a radio queima
o corticoide engorda
a careca brilha
“eu sabia que hoje deveria ter vindo de peruca”, pensou Maria.
“nada a ver. a vida é muito curta pra se usar peruca”, pensou Maria
“a sua, ainda mais”, pensou Maria
“hahaha”, pensou Maria
e riu.
riu também porque estava ali para se despedir da equipe que vinha lhe acompanhando há anos
ia parar com o tratamento
queria dignidade no tempo que lhe restasse
(e tinha uma esperança de que o tempo se arrastasse também)
“Sra. Maria!”, gritou a secretária.
entrou na sala da doutora, mal sentou, já foi direto ao ponto.
“obrigada por tudo. vim me despedir. vou pra Joanópolis, pro meu sítio, esperar a morte chegar” e riu de novo. sua risada ecoou sem graça.
continuou: “não espero que me entenda, apenas que aceite minha escolha, ok?”
e já foi pegando suas coisas pra ir embora.
a medica falou algumas palavras, foi doce, disse que estaria ali, caso ela mudasse de ideia, e que desejava o melhor.
Maria agradeceu e saiu. Pediu pra medica avisar a equipe porque tinha desistido de avisar.
Tudo porque ela sentiu o abraço de “então, boa morte” (ops, sorte) da médica.
e isso era tudo que ela não queria. sorte sim.
decidiu descer de escada, eram só 13 andares.
começou a chorar… viu seus pés se movendo, pra baixo e pra cima, e pensou no tic-tac. O relógio tinha voltado a andar…. maaaaas…., conforme descia os lances da escada de incendio, ela passou a sorrir. Primeiro, timido. depois - lá pelo 5o andar ela já sorria mais. E mais. E mais.
até que no térreo, estava exultante.
foram DEZ anos disso e daquilo.
Parecia, enfim, que ela tinha se demitido de um emprego ruim, com chefe ruim, com colegas ruins, num escritório ruim.
A vida só tinha lugar pra melhorar dali pra frente.
E Maria foi.
Pra frente.
Que fim levou?
Ninguém sabe.
Mas dizem que tem uma tal de Maria que hoje planta orgânicos no quintal da sua “casa” em Joanópolis, que está até hoje esperando uma visita que nunca veio…
tic-tac
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